O descanso do guerreiro

A pintura “Antiguidades” representa o “antigo” como modelo
cultural do “Velho Mundo”, reportando-nos ao imaginário
medieval europeu e talvez à fantasia romântica do personagem
D. Quixote, de Miguel de Cervantes Saavedra (1547 – 1616).

É sabido que Cervantes, convivendo no século XVI com a
definição de modelos para o mundo antigo, confere a D.
Quixote um saudoso e fantástico apego ao passado medieval do
qual o homem dos séculos XIV e XV desejava se distinguir. Os
romances, para D. Quixote, são experimentados vividamente,
tornando-o ridículo e lunático aos olhos do mais simples dos
ignorantes. A referência do quadro a Cervantes não reside
apenas nas armas sobre tantos livros antigos e desfolhados,
mas também no título “O descanso do guerreiro”, descrevendo
tanto o abandono do antigo pelo novo, como também a morte de
D. Quixote, extinguindo o “homem antigo”.

Benedito Calixto (1853-1927) põe em relação esse estudo com
o ideal republicano paulista e com a valorização da história
do Estado de São Paulo e de sua crescente importância no
cenário político nacional.

Sobre o registro da história antiga, nos livros sobre a
cadeira e cartas manuscritas, repousa a espada, um florete
típico dos séculos XVI e XVII, inclinado para baixo. Acima,
documentos e tratados focados pela luz da cena repousam
sobre a mesa. Assinados ou lidos com fé, representada por um
crucifixo incrustado de diamantes, esses documentos
ofuscados pela luz parecem ter importância histórica.
Possuem a lateral decorada com fitas luxuosas, e também
estão cobertos por uma caixa aberta, com medalha ou joia
dourada, e por um livro de capa nova, um volume
enciclopédico, sobre o qual está o capacete.

Predomina em sua paleta, o verde e o marrom que compõem
grande parte do quadro são respectivamente o verde
vèssie, que se aproxima muito do verde da bandeira, e
o marrom terra-de-siena. Já o branco ofusca os documentos
sobre a mesa, em contraste com o cereja da toalha. Curiosos
são também os ornatos do tapete e da toalha, com motivos
florais. A cadeira, torneada em estilo manuelino, também
apresenta madeira vivamente avermelhada.

O quadro foi doado pelo pintor ao Centro de Ciências, Letras
e Artes – C.C.L.A., de Campinas, inaugurado em 1901 com a
exposição de diversas obras suas. Recebeu a doação um dos
fundadores do C.C.L.A. e seu primeiro secretário, César
Bierrenbach (1872 – 1907), integrante de um grupo de
intelectuais, artistas e cientistas, vinculados quase todos
ao Colégio Culto à Ciência ou ao Instituto Agronômico de
Campinas. A obra foi provavelmente roubada, tendo sido vista
pela última vez na Pinacoteca do Centro de Ciências, Letras
e Artes, em 11 de outubro de 2001.

Benedito Calixto foi pintor autodidata. Ainda adolescente,
muda-se de sua cidade natal, a Vila de Nossa Senhora da
Conceição de Itanhaém, para Brotas, iniciando sua carreira
artística. Após sua primeira exposição em 1881, na sede do
Correio Paulistano, em São Paulo, muda-se para Santos, onde
emprega-se na serralheria e carpintaria de Tomaz Antônio de
Azevedo, contratada na construção do Theatro Guarany, de
1882.

O conjunto de pinturas de Calixto para a decoração do teatro
ganha reconhecimento e rende ao jovem a oportunidade de,
patrocinado pelo Visconde de Vergueiro, estudar pintura em
Paris. Seus estudos duram 18 meses, retornando com um
equipamento fotográfico que lhe dá pioneirismo na pintura
brasileira a partir de fotografias.

É possível que a composição dos objetos antigos de seu
quadro tenha sido fotografada ainda na Europa, em um dos
ateliês visitados pelo artista, ou produzida no Brasil com
antiguidades adquiridas na viagem.

Segundo Caleb Faria Alves, em Benedito Calixto e a
construção do imaginário republicano
, Calixto dedica a
São Paulo um rico patrimônio artístico, exaltando suas
paisagens e criando reconstituições históricas de fatos e
personagens do passado paulista.

Não por acaso, associa-se ao C.C.L.A., que tinha como ideais
o pioneirismo científico, político, e o amor às tradições
históricas, além do cultivo do saber, já possuindo em sua
inauguração a vasta biblioteca, atualmente com mais de cem
mil livros, segundo consta em Centro de Ciências, Letras e
Artes – Ano 101, de Luiz Carlos Borges e Gustavo Osmar
Mazzola, de 2002.

Alexandre Cartianu
03/07/2012

Bibliografia:
C. Faria Alves, Benedito Calixto e a construção do
imaginário republicano. Bauru: EDUSC, 2003.
M.A. de Oliveira Milliet, Benedito Calixto: memória
paulista. São Paulo: Banespa/Pinacoteca do Estado, 1990.
M. Poletini, P.J. Braz, Um estudo das obras sacras de
Benedito Calixto. Santos: Fundação Pinacoteca Benedito
Calixto. 2004.

Depoimento:
Professora Juraci Beretta Rodrigues da Silva, pelo Centro de
Ciências, Letras e Artes de Campinas, coletado em novembro
de 2001, durante visita ao Museu Carlos Gomes.

Artista

CALIXTO DE JESUS, Benedito

Data

1890c. / 1900

Local

Localização ignorada

Medidas

120 x 85,5 cm

Técnica

Óleo sobre tela

Suporte

Pintura

Tema

Alegorias e Temas Artísticos Morais e Psicológicos

Período

O SÉCULO XIX NA AMÉRICA HISPÂNICA E NO BRASIL (A PARTIR DE 1822)

Index Iconografico

1625 - Natureza Morta

Autor

Luiz Marques

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *