O Nascimento de Afrodite

“Na tradição textual antiga, há duas versões do nascimento de
Afrodite. A primeira a faz filha de Zeus e Dione, divindade
pré-olímpica. Ela remonta à Ilíada (3,374) e é retomada no
Hino à Afrodite de Safo (nascida por volta de 630 a.C.) e em
Apolodoro, Biblioteca, I,3,1.

A segunda, aqui representada, a faz um divindade pré-
olímpica, filha do esperma de Uranos, lançado ao mar por
Cronos, de onde ser chamada Afrodite Anadiômenes (“”emersa
das ondas””). Suas fontes são o Hino a Afrodite de Homero e a
Teogonia de Hesíodo:

1. Homero, Hino a Afrodite:

A augusto-áurea coroada e bela Afrodite
Eu cantarei, a cujo domínio pertencem as embarcações
de Chipre rodeado de mares, soprado pela úmida respiração de
/ Zéfiro,
ela era levada por sobre as ondas do mar sonoro
em suave espuma. As Horas tecidas em ouro
alegremente acolhem-na e vestem-na com celestiais vestes

2. Hesíodo, Teogonia, 188. Filho de Uranos, Cronos castra
seu pai com uma foice, no momento em que este “”envolve Gaia
(Terra), ávido de amor””. Do esperma de Uranos lançado ao
mar:

“”uma branca espuma saia do membro divino. Dela se formou uma
filha, que dirigiu primeiramente a Cítera, a divina, e
depois a Chipre, rodeada de ondas. E foi lá que aportou a
bela e venerada deusa que fazia à sua volta, sob seus pés
ligeiros, crescer a relva, e que os deuses assim como os
homens chamam Afrodite, por se ter formado da espuma, ou
ainda Citérea, por ter abordado Cítera””.

A dupla origem de Afrodite foi tematizada por Platão no
Banquete (180c-181c.), onde Pausânias precisa o gênero de
elogio que se deve fazer a cada espécie de amor:

“”Pois que há duas Afrodites, forçosamente haverá também dois
Amores. Ora, como negar a existência de duas deusas? Uma,
sem dúvida a mais antiga, que não tem mãe e é filha de
Uranos, é a que chamamos Urânia. Mas há outra, menos antiga,
filha de Zeus e de Dione, que chamamos Afrodite Pandêmia””.

O tema de Afrodite, pertencente ao gênero dos “”discursos
sobre o amor””, referido no exórdio do Banquete, 172b,
ressurge em Xenofonte, Banquete, VIII 9-10 e atinge sua
máxima tensão filosófica em Plotino, Enéadas, (Do Amor),
III, 5 [50], 2, 15-45:

“”Dizemos que Afrodite é dupla: a primeira é a Afrodite que
chamamos uraniana, pois dizemos que ela é descendente de
Uranos, a segunda é a Afrodite nascida de Zeus e de Dioné,
relacionada aos matrimônios daqui, posto que os preside””.

A imagem retorna em Plotino no ápice de seu percurso, o
Tratado do Bem e do Um (VI, 9 [8], 9):

“”Pois que a alma é diferente de Deus, deste entretanto
provindo, ela o ama necessariamente; se ela está lá, ela o
ama com amor celeste; aqui, somente com amor vulgar. Lá, é a
Afrodite celeste; aqui, a Afrodite popular, semelhante a uma
cortesã””.

De Cícero (De natura deorum, III, 59) a Boccaccio
(Genealogie deorum gentilium III, cap. 22 e 23) esta
duplicidade converte-se em topos filosófico e
alegórico, conservando-se na Idade Média, por exemplo, no
Comentário sobre Seis Cantos da Eneida de Bernardo
Silvestre:

“”Lemos que há duas Vênus, uma deusa legítima e uma deusa do
desejo. Dizemos que a Vênus legítima é a música do universo,
ou seja a proporção equitativa entre as coisas””.

Embora mencionada na Epístola de Carlo Marsuppini a Lorenzo
Valla em 1433, é entre 1470 e 1490 que as duas origens de
Afrodite colocam-se no centro da reflexão de poetas e
filósofos como Ficino, Giovanni Pico della Mirandola e
Poliziano.

Ela é assumida como categoria eminente da filosofia
platônica no Comentário ficiniano de 1469 (publicado em
1484) ao Banquete, bem como nas Conclusiones de 1486, de
Giovanni Pico, que frisava a transitividade entre estes dois
“”graus do amor””, segundo a idéia da participação do sensível
no inteligível (Conclusio 622):

“”Pela dúplice Vênus de que trata o Banquete de Platão, nada
devemos entender senão uma dúplice beleza, sensível e
inteligível””.

Botticelli não é talvez o único, nos anos 1480, a enfrentar
o tema de Vênus Urânia, pois a ele talvez aluda a
metamorfose de Vênus em divindade alada na série da Educação
de Eros, atribuída por Chastel a Bertoldo. A justaposição
entre o unicórnio e o cervo na Alegoria do Amor de Filippino
Lippi (Cincinnati Art Museum), de 1485c, seria possivelmente
outra forma de contrapor simbolicamente as duas Vênus.

Mas Botticelli é o primeiro a explicitamente representar, na
modernidade, a Vênus Urânia.

(continua nos textos que acompanham as imagens dos detalhes
1 e 2 da obra)”

Artista

BOTTICELLI, Sandro

Data

1485

Local

Florença, Galleria degli Uffizi

Medidas

172,5 x 278,5 cm

Técnica

Têmpera sobre madeira

Suporte

Pintura

Tema

Mitologia, História e Topografia Antigas

Período

SÉCULO XV

Index Iconografico

10Ura1 - A Castração de Uranos por Saturno e o Nascimento de
Afrodite; 12Ven - Vênus Afrodite; 10Venz - Zéfiro; 12JupxTem1
- As Horas

Autor

Luiz Marques

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