O Sangue do Redentor

Registro inventarial: inv. 1233

Sobre um piso ladrilhado, circunscrito por dois parapeitos
decorados com relevos antigos, o Cristo ressuscitado, ao
mesmo tempo triunfante sobre a cruz e Homo doloris,
segura os instrumentos de seu martírio (a cruz e a coroa de
espinhos) enquanto um anjo ajoelhado recolhe o sangue de seu
sacrifício redentor que jorra de seu peito.

As manchas sobre o piso eram originalmente nuvens de ouro
com anjos azuis e vermelhos, cores habituais de querubins e
serafins no século XV. Eles foram removidos em algum momento
após a conclusão da obra. Ao fundo, uma paisagem da campanha
vêneta mostra um povoado, uma mais distante cidade murada e,
à direita, dois monges próximos de uma ruína com um arco,
percebidos por alguns estudiosos como “pelegrinos em viagem
mística à cidade eterna” (Tempestini).

Esta pequena têmpera sobre madeira, unanimemente atribuída a
Giovanni Bellini (1430c.-1516), pode ter servido de porta de
um tabernáculo em que se conserva a taça para o rito da
Eucaristia durante a missa.

O monumental contraponto entre a Eucaristia e a cognição
antiga do divino, proposto em 1508 na Stanza della
Segnatura
por Rafael (e por Tommaso ´Fedra´ Inghirami,
provável inventor daquele programa), encontra nesta
obra um precedente importante, típico das confluências entre
Florença, Pádua e Ferrara promovidas pelas diversas
passagens de Leon Battista Alberti por Ferrara, mas
sobretudo pela longa estada paduana de Donatello.

As cenas de sacrifícios pagãos nos relevos pintados em ouro
sobre mármore mischio que ornam os parapeitos têm
caráter enigmático. Nelas se reconhecem, em todo o caso, as
figuras de Pan e de Mercúrio e numa delas se lê a inscrição:

DIS MANIB[VS] AUR[EL]IVS […] TI

Embora hoje enigmática, esta inscrição tem caráter funerário
e é evidente o paralelo entre essas duas cenas e o sangue
jorrando da ferida do Redentor, paralelo que se torna tanto
mais eloquente quando mantemos em mente a contemporânea
controvérsia que opôs franciscanos e dominicanos em torno da
questão do estatuto divino do sangue de Cristo nos três dias
passados no sepulcro.

Neste contexto, o caráter cruento dos sacrifícios pagãos põe
em evidência, e de algum modo legitima, o culto sempre mais
difuso do sangue de Cristo, proibido por Pio II em 1462 e de
novo em 1464, mas em vão, ao menos em Veneza, sempre tão
altiva em relação a Roma, haja vista representações
sucessivas do mesmo tema por Quirizio da Murano (1475),
Crivelli (1480-1490) e Carpaccio (1496).

Os anos 1460 eram justamente os anos em que a evocação dos
cultos religiosos e mistéricos da Antiguidade fascinava
Giovanni Bellini, como o demonstram seus chiaroscuri
do Berea College de Kentucky e da Coleção Contini-Bonacossi,
já colocados por Roberto Longhi (1927) em relação com os
relevos pintados do Sangue do Redentor.

Outrora na coleção Fairfax Murray de Londres, a obra entra
na National Gallery em 1887.

Luiz Marques
28/10/2011

Bibliografia:
1899 – R. Fry, Giovanni Bellini, New York: Ursus Press,
1995, p. 21-23.
1927 – R. Longhi, “Un chiaroscuro e un disegno di Giovanni
Bellini. Opere Complete, vol. II Saggi e Ricerche, 1925-
1928, Florença: Sansoni p. 183
1927 – E. Panofsky, “Imago pietatis. Ein Beitrag zur
Typengeschichte des ´Schmerzensmanns´ und der ´Maria
Mediatrix´”. Festschrift für Max J. Friedländer zum 60.
Geburtstage. Lepzig, pp. 261-308, trad. francesa, Peinture
et Dévotion en Europe du Nord à la fin du Moyen-Âge, Paris:
Flammarion, 1997, pp. 27-28.
1961 – M. Davies, National Gallery Catalogues. The Earlier
Italian Schools, Londres, 2a ed.
1969 – T. Pignatti, Giovanni Bellini. Paris: Flammarion,
1975, p. 88
1993 – A. Tempestini, Giovanni Bellini. Paris: Bordas, p.
32.

Artista

BELLINI, Giovanni

Data

1460/ 1470

Local

Londres, National Gallery

Medidas

47 x 34 cm

Técnica

Têmpera sobre madeira

Suporte

Pintura

Tema

Bíblia e Cristianismo

Período

SÉCULO XV

Index Iconografico

700C - Tipologia do Cristo; 700C14 - O Sangue de Cristo e o
Cristo da Eucaristia

Autor

Luiz Marques

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