Primavera. Detalhe 2: As Graças e Mercúrio

“(continuação do texto de comentário à imagem Detalhe 1 da
Primavera)

Edgar Wind parte da ideia de que as ornamentações poéticas
de Botticelli devem certamente muito a Poliziano e a seus
comentários em versos ou transfigurações de poemas antigos,
como os Hinos Homéricos, as Odes de Horácio e os Fastos de
Ovídio. Mas, em nenhum destes poemas, os paralelismos com a
pintura estendem-se para além de aspectos isolados ou
episódios da iconografia, insuficientes para explicar seu
programa.

A hipótese de Wind é que as três Graças podem oferecer uma
chave para a compreensão do inteiro programa. Seu ponto de
partida é um texto de Pico della Mirandola, Conclusiones
de modo intelligendi hymnos Orphei
, no qual o filósofo
declara:

“”Quem compreende até o fundo e claramente como a unidade de
Vênus manifesta-se na trindade das Graças, e a unidade da
Necessidade na trindade das Parcas, e a unidade de Saturno
na trindade de Júpiter, Netuno e Plutão, conhece a justa via
de proceder na teologia órfica””.

Se, como afirma Pico della Mirnadola, a tríade é a forma de
uma dialética que pervade o inteiro mundo pagão, é legítimo
indagar como a tríade das figuras à direita da pintura –
Zéfiro, Cloris, Flora – tirada de uma passagem dos Fasti de
Ovídio, vincula-se à tríade formal das Graças, à esquerda, e
se estes dois grupos contrastantes, lado a lado da Vênus,
não representam talvez dois momentos consecutivos de uma
única, coerente teoria do amor.

Vasari reconheceu na figura central da composição a figura
de Vênus, não obstante a sua modéstia e o seu recato. Sobre
ela, como atributo inconfundível, está um Cupido vendado,
cuja ação põe em ressalto, por contraste, o gesto comedido
da deusa.

A flecha do Cupido endereça-se sem dúvida à figura central
das Graças, justamente à Castitas, distinta das irmãs por
ser a única que não porta nenhum adorno, sendo seu drapeado
mais simples e seu penteado, menos esvoaçante.

Seu aspecto mais apático e melancólico contrasta com a
expressão mais volitiva de sua vizinha da esquerda, que
avança sobre ela, com expressão resoluta, com exuberância e
um senso de profusão.

A terceira Graça demonstra sua beleza com orgulho judicioso.
Porta um medalhão de menores dimensões, e sua beleza, embora
ricamente adornada, é mais composta. É possível que os nomes
latinizados das três Graças – Viriditas, Splendor, Laetitia
Uberrima – que significam Verdor ou Adolescência, Esplendor
e Prazer Pleno, tenham sugerido alguns dos traços da tríade
abstrata de Castitas/Pulchritudo/Voluptas.

Que as Graças não estejam nuas, como nos modelos antigos e
sucessivamente em Rafael e Correggio, por exemplo, mas
recobertas por tecidos translúcidos denota a presença de
fontes literárias precisas:

– Sêneca, De beneficiis, I, III,5: “”solutis itaque tunicis
utuntur; perlucidis autem… (e estas usavam túnicas soltas,
translúcidas entretanto…); I, III,2: “”solutaque ac
perlucida ueste”” (e com veste solta e translúcida).

Sobretudo a coreografia da dança parece seguir a descrição
de Sêneca:

“”Ille consertis manibus in se redeuntium chorus”” (aquele
grupo voltigeante em torno de si, com as mãos dadas)

De qualquer forma, o sentido poético da ação em que se
envolvem as três Graças é inequívoco: enquanto a
“”adolescente”” Castitas e a “”plena”” Volúpia avançam uma em
direção à outra, Pulchritudo, isto é, a Beleza, no seu
esplendor, mantém-se firme e equilibrada, do lado da
Castitas. Se a dialética da discordia concors pode
ser expressa na dança, isto ocorre neste grupo.

As formas em que se entrelaçam as Graças são significativas:
a. mãos levantadas e postas palma contra palma mostram um
encontro, a Beleza da Paixão, o pólo discordia; mãos
abaixadas e apenas entrelaçadas mostram ausência de qualquer
conflito, o pólo concors.

O gesto mais elevado, coroando a cabeça da Castitas, define
o tema da dança, como o de sua iniciação: Castitas é a
neófita, raptada e iniciada ao Amor sob os cuidados de
Volúpia e Puchritudo. Protegida por Vênus e atacada por
Cupido, esta adota os traços daquela contra a qual resiste:
a veste cai-lhe do ombro esquerdo, isto é, do lado da
Volúpia. Mas, por outro lado, Castitas comunica sua própria
natureza ao caráter da dança, de onde seu aspecto em nada
orgiástico.

(continua no texto que acompanha a imagem do terceiro
detalhe da obra)”

Artista

BOTTICELLI, Sandro

Data

1482c.

Local

Florença, Galleria degli Uffizi

Medidas

203 x 314 cm

Técnica

Têmpera sobre madeira

Suporte

Pintura

Tema

Mitologia, História e Topografia Antigas

Período

SÉCULO XV

Index Iconografico

1104Prim - A Primavera; 12Ven - Vênus Afrodite; 130Gra - As
Graças Eufrosine, Tália e Áglae; 12Mer - Mercúrio Hermes

Autor

Luiz Marques

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