Primavera

“O título da obra remonta à menção que Giorgio Vasari faz à
obra em sua Vida de Botticelli (1550):

Per la città, in diverse case fece tondi di sua mano, e
femmine ignude assai; delle quali oggi ancora a Castello,
villa del Duca Cosimo, sono due quadri figurati, l´uno,
Venere che nasce, e quelle aure e venti che la fanno venire
in terra con gli Amori; e cosí un´altra Venere, che le
Grazie la fioriscono, dinotando la primavera

“”Para a cidade, em diversas casas fez tondos de sua mão e
muitos nus femininos, dos quais ainda hoje se vêem em
Castello, a villa do Duque Cosimo, dois quadros,
representando, o nascimento de Vênus com aquelas auras e
ventos que a fazem chegar à terra com os Amores; e outra
Vênus, florida pelas Graças, denotando a primavera””.

A interpretação das obras mitológicas de Botticelli e em
especial da Primavera oferece sem dúvida o mais complexo
conjunto de problemas da história da arte florentina do
Quatrocentos.

Seu estudo convoca todos os problemas teóricos postos pela
interação entre imagem e palavra em nossa cultura. Além
disso, ele requer o conhecimento circunstanciado de
praticamente todas as principais variáveis históricas e
intelectuais da história da pintura florentina da segunda
metade do século XV.

A imensa complexidade do jogo hermenêutico que consiste em
lidar de forma integrada com estas variáveis bem justifica a
observação de Gombrich: “”Quem quer que se interesse por
problemas de método não pode fazer nada melhor que estudar
as interpretações conflitantes da Primavera””.

Ao longo de mais de um século de interpretações, desde
Warburg em 1893, os estudiosos tentaram situar a obra
alternativamente em três contextos:

1. uma celebração do mito da primavera, repleta de evocações
da tradição poética clássica, objeto central dos studia
humanitatis, e em íntima consonância com o cultivo da poesia
antiga e vernacular centrada na figura de Poliziano e dos
demais poetas da corte de Lorenzo de´ Medici. Tais
referências encontrar-se-iam nos dois poemas de Poliziano –
le Stanze per la Giostra di Giuliano de´ Medici e Sylvae – e
em suas fontes antigas (os hinos homéricos, as Odes de
Horácio os Fasti de Ovídio, o De rerum natura de Lucrécio,
etc.). O ponto de partida desta interpretação é o ensaio de
Warburg de 1893. Tal é o esforço, por exemplo, de
Francastel, Bredekamp e Dempsey. Sem descartar completamente
toda ressonância filosófica, esta interpretação e
nomeadamente a de Bredekamp tende a criticar o peso
excessivo das fontes textuais, em proveito de uma análise
histórica das relações com o comitente, Lorenzo di
Pierfrancesco de´ Medici;

2. uma meditação sobre a beleza e sobre as relações entre o
mundo sensível e o mundo inteligível, baseada na filosofia
neoplatônica de Marsilio Ficino e de seus seguidores,
intimamente associada aos Medici; é a corrente central de
estudos, inaugurada por Panofsky, continuada por Edgar Wind
e Gombrich e retomada mais recentemente, por exemplo, por
Snow-Smith, em 1993.

3. os festivais cívicos, tais como os de Calendimaggio e as
celebrações públicas, dentre os quais os torneios promovidos
pelos Medici e as cerimônias nupciais. Aqui, inserem-se
naturalmente também as interpretações tendentes a enfatizar
as pretensões à celebração dinástica dos Medici. Francastel
permanece um expoente desta interpretação, a qual valoriza a
hipótese de uma relação entre a Primavera e a figura de
Simonetta Cattaneo, esposa de Marco Vespucci.

Evidentemente, as três interpretações possuem uma grande
zona de intersecção, pois todos concordam que a Primavera é
um documento seminal da tradição clássica.

A controvérsia sobre a Primavera é pois ao mesmo tempo algo
mais simples e mais complexo. Mais simples, porque reflete,
acima de tudo, não um antagonismo de hipóteses, mas uma gama
de ênfases sobre um ou outro aspecto do significado plural
da obra.

E mais complexo, porque, na realidade, as divergências sobre
a Primavera decorrem menos de discordâncias irreconciliáveis
no âmbito da iconografia, que de compreensões diversas sobre
quais tenham sido as correntes e sensibilidades intelectuais
que de fato exerceram sua hegemonia no Renascimento
florentino e notadamente em seu imaginário artístico. Toda
teoria sobre a Primavera é antes de mais nada uma teoria
sobre o Renascimento.

(continua nos textos que acompanham as imagens dos detalhes
da obra)”

Artista

BOTTICELLI, Sandro

Data

1482c.

Local

Florença, Galleria degli Uffizi

Medidas

203 x 314 cm

Técnica

Têmpera sobre madeira

Suporte

Pintura

Tema

Mitologia, História e Topografia Antigas

Período

SÉCULO XV

Index Iconografico

1104 - Representações do Tempo; 1104Prim - A Primavera; 12Ven
- Vênus Afrodite; 130Gra - As Graças Eufrosine, Tália e
Áglae; 12Mer - Mercúrio Hermes; 10Venz - Zéfiro

Autor

Luiz Marques

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