Psiquê reanimada por Eros

“Registro inventarial: inv. M.R. 1777

As representações figurativas do mito de Psiquê (Psyché)
remontam ao menos ao século VI a.C. como o demonstra o
Pinax (painel de terracota) com “”Afrodite e Hermes
sobre um carro puxado por Eros e Psiquê”” encontrado no
santuário de Perséfones em Locres Epizephyrii, colônia da
Magna Grécia sobre a costa adriática, hoje no Museo
Nazionale Archeologico de Reggio di Calabria.
 
Também o mundo romano representou-a abundantemente, com toda
a probabilidade sob o impacto da perdida narrativa
alexandrina de certo Lúcio de Patre (conforme atesta o
patriarca bizantino, Fócio, no século IX), narrativa que
sobrevive, transfigurada, no pequeno “”Lúcio ou o Asno”” do
Pseudo-Luciano e sobretudo no Metamorphoseon libri de
Apuleio, composto por volta de 125 d.C. e conhecido
alternativamente pelo título de Asinus Aureus, tal
como a ele se refere S. Agostinho.
 
Se a fábula de Psiquê foi intensamente tratada na história
da arte desde a Antiguidade, é bastante rara a representação
da cena escolhida por Antonio Canova (1757-1822) no romance
de Apuleio (VI, 21-23), na qual Psiquê é reanimada por
Cupido do sono letárgico em que a haviam mergulhado os
vapores do Stynx, encerrados no vasinho (pyxis) que
Proserpina lhe confiara. Movida por sua irresistível
curiosidade e pela esperança de que o vaso contivesse
belezas divinas de que ela poderia se beneficiar, Psiquê
abre-o:
 
et cum dicto reserat pyxidem. Nec quicquam ibi rerum nec
formonsitas ulla, sed infernos somnus ac vere Stygius, qui
statim coperculo relevatus invadit eam crassaque soporis
nebula cunctis eius membris perfunditur et in ipso vestigio
ipsaque semita conlapsam possidet. Et iacebat immobilis et
nihil aliud quam dormiens cadaver.

 
“”E assim dizendo, ela abre o vasinho. Mas dentro não havia
nada, nenhuma formosura; apenas um sono ínfero, um sono
verdadeiramente do Stynx, que, tão logo aberta a tampa,
invadiu-a e penetrou-lhe todos os membros com uma densa
névoa de letargia e, no lugar mesmo de seu caminho, ele a
possui, fazendo-a cair por terra. E lá jazia ela imóvel tal
qual um cadáver imerso em sono””.
 
Mas eis que chega Cupido em seu socorro:
 
Sed Cupido (…) Psychen acurrit suam detersoque somno
curiose et rursum in pristinam pyxidis sedem recondito
Psychen inoxio punctulo sagittae suae suscitat et: “”Ecce””,
inquit, “”rursum perieras, misella, simili curiositate.

 
“”Mas Cupido (…) acorre junto à sua Psiquê e, enxugando o
sono e colocando-o de novo no vasinho, acorda-a, picando-a,
sem lhe fazer mal, com a ponta de sua seta: ´Eis´, diz ele,
´que de novo te havias perdido, pobrezinha, vítima de uma
mesma curiosidade´.””
 
O beijo com que Cupido a desperta, como que reunindo as duas
etéreas e andróginas criaturas no mesmo prisco organismo
evocado no “”Banquete”” de Platão, é portanto uma invenção
delicadamente sensual do artista, invenção que, como se
sabe, viria a desfrutar de imensa fortuna no século XIX.

Os primeiros esboços desse celebérrimo grupo, um deles
conservado na Fondazione Canova de Possagno, são de 1787 e o
modello foi ultimado em 1788. Ele comparece no duplo
retrato em pastel de 1789-1791 que Hugh Douglas Hamilton
(1735-1808) pinta de Canova em seu ateliê em Roma,
acompanhado por Henry Tresham, hoje no Victoria and Albert
Museum de Londres.
 
O mármore do Louvre foi executado entre 1792 e 1793 para o
coronel John Campbell, mais tarde Baron Cawdor, que, de
resto, não pagou o artista, circunstância que explica a
transferência da obra em 1801 para a coleção do grande
colaborador de Napoleão – seu cunhado e, a partir de 1808,
rei de Nápoles -, o marechal Joachim Murat, que a doou em
1824 ao Louvre.
 
Em 1796, Canova executa uma segunda versão do grupo (137 cm
de altura), encomendada em Roma pelo Príncipe Nicolai
Yusupov, na qual, a pedido do comitente, o artista recobre
com um drapeado as pernas de Psiquê. A obra entra em 1926
no Ermitage, em São Petersburgo. O gesso realizado para a
execução dessa segunda versão encontra-se no Metropolitan
Museum de New York.
 
Luiz Marques
07/04/2012
 
 
Bibliografia:
125c. – Apuleio, Le Metamorfosi, ed. bilingue aos cuidados
de L. Nicolini, Milão: BUR, 2005, p. 409.
1992 – N. K. Kosareva, in S. O. Androsov (et alia), Canova
all´Ermitage. Le sculture del Museo di San Pietroburgo.
Catálogo da exspoição, Roma: Marsilio, p. 140
1998 – C.M.S. Johns, Canova and the Politics of Patronage
in Revoltionary and Napoleonic Europe. Londres: University
of California Press, pp. 149-150.
2002 – S. Cavicchioli, Éros et Psyché. Paris: Flammarion, p.
204
2003 – I. Leroy-Jay Lemaistre, Psyché ranimée par le baiser
de l´Amour, Paris: RMN.”

Artista

CANOVA, Antonio

Data

1793

Local

Paris, musée du Louvre

Medidas

 155 (alt.) x 168 x 101 cm

Técnica

Mármore

Suporte

Escultura

Tema

Mitologia, História e Topografia Antigas

Período

SÉCULO XVIII

Index Iconografico

92 - Romances greco-latinos; 92Apu - Apuleio, O Asno de Ouro
ou Metamorfoses; 92Apu1 - Eros e Psiquê

Autor

Luiz Marques

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