Repouso na Fuga para o Egito com S. João Batista Menino

Registro inventarial: inv. n. 98

Uma colaboração de juventude entre Francesco Granacci (1469-1543) e Michelangelo (1475-1563) nesta obra foi cogitada por alguns estudiosos. A primeira contribuição ao problema remonta a um ensaio de Fiocco [1930/1931], que a atribui diretamente a Michelangelo. A atribuição não grangeou consenso entre os estudiosos. Sisi [1985] nem sequer inclui a obra em seu estudo sobre as relações de Michelangelo com os pintores do século XV.

O debate reacende-se, entretanto, nos anos 1990, motivado pela excepcional qualidade da obra. Sublinhando as semelhanças motívicas e de composição entre o Repouso de Dublin e a assim chamada Madona Manchester* de Michelangelo na National Gallery de Londres, Hirst [1994:44] conclui que a comum experiência dos jovens artistas no ateliê de Domenico Ghirlandaio fornece um efetivo trait-d´union entre as duas obras.

De fato, a figura do Cristo na Madona Manchester e a de S. João Batista no retábulo de Dublin dependem rigorosamente, ainda que invertidas, de um mesmo modelo, fato posto em evidência por Weil-Garris Brandt [1999:339], que chega a supor um modelo comum tridimensional. O simples recalque de um desenho no verso de um fólio pode, contudo, explicar essa inversão.

Seja como for, a proposta de von Holst [1974:130] de uma eventual participação de Michelangelo na obra-prima de Granacci no museu irlandês é retomada com vigor em especial a partir do reexame de todo o dossiê juvenil de Michelangelo proposto pela exposição Giovinezza di Michelangelo, cf. Weil-Garris Brandt [1999].

No catálogo da exposição, Penny afirma ser impossível “não se indagar se um desenho de Michelangelo não está na base da pintura, como von Holst já cogitara”. Joannides [2002:7] aprofunda essa hipótese, colocando como pano de fundo da relação Granacci / Michelangelo, não tanto a experiência no ateliê de Ghirlandaio como o desafio de uma resposta a Leonardo da Vinci.

Veja-se neste mesmo contexto das relações com Michelangelo outra obra de Granacci de mesmo tema, no Musée d´Art et d´Archéologie de Toulon* (inv. n. 194).

Um indício suplementar de que a obra é um ponto culminante na arte de Granacci, graças possivelmente a uma participação decisiva de Michelangelo, são as oito derivações repertoriadas, entre versões oriundas do ateliê de Granacci e cópias sucessivas, uma das quais, em mau estado de conservação, no Museu Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro.

Luiz Marques
03/01/2010

Bibliografia
1930 – G. Fiocco, “La data di nascita di F. Granacci e un´ipotesi Michelangiolesca”. Rivista d´Arte, XII e XIII, 193 e seg. e 109 e seg. especialmente p. 128
1974 – C. v. Holst, Francesco Granacci. Munique: Bruckmann, p. 130
1985 – C. Sisi (e colab.), Michelangelo e i maestri del Quattrocento. Catálogo da Exposição. Florença, Casa Buonarroti. Florença: Cantini.
1992 – L. Marques, Catálogo Raisonné da Pintura Italiana anterior ao Século XIX no Museu Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro. São Paulo: Area Ed.
M. Hirst, J. Dunkerton, Making

Artista

GRANACCI, Francesco

Data

1490/ 1494c.

Local

Dublin, National Gallery of Ireland

Medidas

100 x 71 cm

Técnica

Óleo sobre madeira

Suporte

Pintura

Tema

Bíblia e Cristianismo

Período

SÉCULO XV

Index Iconografico

606A - Anunciação, Nascimento e Infância de Jesus Cristo; 606A11 - A Fuga para o Egito, Repouso na Fuga ao Egito, milagres e demais episódios ocorridos nas viagem

Autor

Luiz Marques

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