Retábulo Montefeltro. A Virgem e o Menino com Santos, anjos e Federico da Montefeltro

O retábulo de Brera, como é também conhecido, foi pintado
por encomenda de Federico da Montefeltro (1422-1482), Duque
de Urbino. A obra encontrava-se na igreja de San Bernardino,
em Urbino, quando foi transferida para a Pinacoteca di Brera
em Milão.

Representa uma Sacra Conversação com a Virgem e o Menino.
Estão representados da esquerda para a direita: S. João
Batista, S. Bernardino de Siena, S. Jerônimo, S. Francisco,
S. Pedro Mártir e S. João Evangelista.

No primeiro plano, vemos o mecenas ajoelhado diante da corte
celeste com as mão postas em oração. Vestido de armadura
completa, abandona as atividades terrenas e se concentra
somente na Virgem.

Federico da Montefeltro, alguns anos antes, participando de
jogos de combate, havia deixado a viseira de seu elmo aberta
para que certa dama o reconhecesse e foi atingido pela lança
do adversário, perdendo um olho. Por isso se fazia
representar somente de perfil, escondendo sua cicatriz. O
elmo amassado a seu lado recorda o acidente. Esse mesmo elmo
aparece nas marchetarias do Studiolo, e funciona como
uma espécie de mementum, de advertência ao Duque de
seus próprios pecados.

A cena no espaço arquitetônico sugere o cruzeiro e o
presbitério de uma igreja. Esta iconografia, extremamente
incomum na Itália, pode ser interpretada como uma derivação
da iconografia nórdica da Mater-Ecclesia (Mãe da
Igreja). De fato, há uma clara identificação entre a figura
da Virgem com o Menino e o altar do edifício, indicado pelo
ovo de avestruz pendurado no teto. É sabido que na época
existia a prática de colocar um ovo sobre o altar. Assim, na
pintura, da mesma maneira que um nicho circular circunda o
altar, os santos cercam a Virgem.

Há consenso entre os estudiosos que o ambiente pintado pelo
artista é um edifício não apenas completamente fictício, sem
referência a nenhuma arquitetura real, mas também fora do
tempo e da história. A igreja representa a Igreja com I
maiúsculo.

Apesar da sofisticação da composição, a obra foi deixada
inacabada: os santos não apresentam os nimbos, e algumas
partes da superfície pictórica estão recobertas apenas por
um véu muito sutil, quase transparente, de tinta.

Posteriormente, a pintura foi alterada por outro artista; as
mãos de Federico foram completamente repintadas e uma jóia
que ornava a testa da Virgem foi apagada. O responsável por
esses retoques foi provavelmente o espanhol Pedro
Berruguete, que começou a trabalhar em Urbino em torno de
1477.

A data da realização da pintura é objeto de polêmica entre
os historiadores e podemos dizer que varia de acordo com as
leituras iconográficas.

A ausência dos símbolos dos títulos honoríficos de Federico
– o título de duque, obtido em 1474 e a Ordem da Cinta
(Order of the Garter) de 1473, entre outros – fez com que
diversos estudiosos colocassem a obra entre 1472 e 1474.

No entanto, essa pode ter sido uma omissão deliberada. Carlo
Bertelli defende que a obra, não obstante seu tamanho
monumental, foi concebida para a devoção privada, na qual
não teriam lugar títulos e honrarias militares.

A interpretação de Bertelli derruba a leitura e datação da
obra com base em tais elementos iconográficos, em geral tão
presentes nas obras encomendadas pelo Duque.

Ronald Lightbown também argumenta em favor da exclusão
intencional dos títulos militares e nobiliárquicos, mas por
outros motivos. A obra, segundo ele, teria sido concebida
para ornar o mausoléu dos Montefeltro, a igreja de San
Bernardino, construída a partir de 1482.

Seu caráter funerário excluiria os habituais símbolos de
poder. Federico, na pintura, não faria mais parte deste
mundo, e, despojado de seus atributos terrenos, estaria
pedindo o apoio da virgem e dos santos para o momento do
julgamento divino.

Outro elemento iconográfico, no entanto, nos permite fazer
uma hipótese com relação à possível data da pintura: o já
citado ovo de avestruz pendurado na abóbada de concha. Tal
elemento poderia também simbolizar a fertilidade, o que
colocaria não tanto a execução, mas principalmente a
concepção da obra, próximo ao nascimento de Guidobaldo da
Montefeltro, o tão esperado herdeiro do duque, em 1472.

De maneira geral, porém, os elementos iconográficos na
pintura representam conceitos e idéias abstratas, e não
objetos ou eventos específicos.

É uma pintura geralmente relacionada ao período tardio da
atividade de Piero della Francesca, que morreu cego em 1492,
apesar de que atualmente os estudiosos tendem a questionar
esta hipótese. Ainda é motivo de polêmica a data em que o
artista teria deixado de pintar.

Patrícia Meneses
28/11/2011

Bibliografia:
1927 – R. Longhi, Piero della Francesca. Opere complete,
III, Florença: Sansoni, 1963.
1991 – C. Bertelli, Piero della Francesca. Milão: Silvana
Editorial, p. 131-150 e 212.

Artista

Piero della Francesca

Data

1472/ 1482c.

Local

Milão, Pinacoteca di Brera

Medidas

215 x 172 cm

Técnica

Têmpera e óleo sobre madeira

Suporte

Pintura

Tema

Bíblia e Cristianismo

Período

SÉCULO XV

Index Iconografico

712A - A Virgem com o Menino Jesus e Santos (Sacra
Conversação)

Autor

Luiz Marques

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