Retrato de Alessandro III Farnese

“Registro inventarial: inv. n. 300

Assinado e datado: Antonius Mor pinx A.D. M Vc L VII

Filho de Ottavio Farnese e de Margherita d´Austria, filha
ilegítima de Carlos V e viúva do duque Alessandro de´
Medici, assassinado em 1537, Alessandro III Farnese (1545-
1592), futuro duque de Parma, Piacenza e Castro, nasce em
Roma quando seu pai, neto do papa Paulo III (1534-1549), era
“”Prefetto”” da Urbe. Ele é retratado aqui aos 12 anos, em
Bruxelas, onde se encontra em companhia da mãe.

O tratado de Gand de agosto de 1556, restabelecendo a
Senhoria dos Farnese sobre Piacenza, e os acordos secretos
sucessivos, objetivando garantir a fidelidade dos Farnese à
coroa espanhola – em contrapartida da qual se assegurava aos
Farnese o domínio do ducado de Parma -, estabeleciam que o
jovem, destinado a brilhante carreira militar, seria educado
na corte espanhola de Felipe II, seu tio, que assume sua
tutela.

Em 1556, Margherita d´Austria viaja com o filho a Bruxelas
para agradecer ao irmão pelos benefícios recebidos. De lá, o
menino acompanhará o tio em uma breve viagem à Inglaterra
(em visita à sua esposa, Maria Tudor, com quem se casara em
1554) e rumará por fim, em 1559, para a Espanha no séquito
do recém-coroado Felipe II, onde permanecerá até 1565, ao
completar 20 anos. Na Espanha, completará os estudos na
Universidade de Alcalá, vindo a se casar em 1565 com a
Infanta Maria de Aviz de Portugal (1538-1577).

Alessandro III não viverá em seu ducado de Parma senão entre
1565 e 1577, passando os demais quinze anos de vida a
serviço de Filipe II na Flandres, onde se distinguiu como
governador e um dos maiores condottieri do século.

Ele oferece o exemplo extremo de hispanização das elites
italianas, fenômeno que caminha pari passu com o
progressivo controle de Carlos V e Filipe II sobre a
península após a Batalha de Pavia (1525) e o Saque de Roma
de 1527. Da mesma maneira, seu retrato por Anthonis Mor
representa um ápice na ascendência de um modelo espanhol ou
hispano-habisbúrgico sobre a retratística italiana do século
XVI.

Após dez anos como pintor da corte dos Habsburgo, Anthonis
Mor (1517c.-1577) havia sabido assimilar a tradição
italiana, nela incorporando um novo substrato cultural. O
retrato que em 1557 Mor pinta do adolescente Alessandro
parece ter por modelo o retrato de Filipe II por Tiziano, de
1554c., voltado para a esquerda, no Museo di Capodimonte,
ambos, por sua vez, baseados no retrato a figura inteira de
Carlos V com seu cão, pintado por Jacob Seisenegger, de
1532, no Kunsthistorisches Museum de Viena Retomado por
Tiziano em 1533 no retrato hoje no Prado.

Uma espécie de ataraxia, de ausência olímpica de toda
particularização expressiva da fisionomia, compõe um novo
gênero de retrato que se pode chamar, não tanto pela
designação geral de “”State Portrait””, mas pelo termo, mais
preciso, de “”Retrato de Corte””, gênero do qual a presente
obra é um consumado exemplo.

A tradição fisiognomônica, centrada no olhar, dá lugar aqui
a uma totalidade na qual o caráter do retratado se deixa
surpreender in toto em cada detalhe de sua aparência:
ex unghe leonem. Este ideal cortês de um retrato
ataráxico corresponde por
excelência ao programa ibérico do retrato. Ele foi levado às
últimas consequências por Alonso Sánchez Coello e Anthonis
Mor e pode ser considerado como um traço constitutivo, no
âmbito da retratística, do que propus chamar em 2004 de
modelo espanhol.

Pode-se encontrar sua mais feliz formulação em uma passagem
do “”Do tirar polo natural”” de Francisco de Holanda, redigido
em 1549:
 
“”Desejo, querendo-o Deus, quando começar a desenhar os
retratos de suas Altezas, ou el-Rei ou a Rainha, que sem
lhes pintar ainda os olhos, nem o nariz, nem a boca (que são
os indícios por onde se conhecem as pessoas, quando estão
bem pintadas), de fazer somente em a feição e perfil ou
talho da cabeça e do vestido ou do corpo, que quem quer que
o tal começo vir, diga sem dúvida ser aquele ou el-Rei ou a
Rainha, não tendo ainda nada no Rosto, mas somente no
primeiro risco e talho que faz a feição da cabeça e do
corpo; isto, porque o tenho eu por muito, desejo eu de o
fazer””.
 
Luiz Marques 
12/12/2011

Bibliografia:
1969 – L. van der Essen, “”Alessandro Farnese””. Dizionario
Biografico degli Italiani, ad vocem.
1972 – E. Del Vecchio, I Farnese. Roma, pp. 95-106.
1983 – L. Fornari Schianchi, La Galleria Nazionale di Parma.
Parma: Artegrafica Silva, p. 112
1995 – P. Ceschi Lavagetto, “”Ritratto di Alessandro
Farnese””. In, L. Fornari Schianchi, N. Spinosa, I Farnese.
Arte e Collezionismo, Catálogo da exposição, Parma, Nápoles,
Munique. Milão: Electa, pp. 264-265.
2004 – L. Marques, “”Una paradoja sobre las relaciones entre
Italia y España en el Renacimiento y la hipótesis de un
modelo español””. In, M.J. Redondo Canteras (ed.), Actas del
Congresso La Recepción del Renacimiento Italiano en España.
Universidade de Valladolid.”

Artista

MOR, Anthonis

Data

1557

Local

Parma, Galleria Nazionale

Medidas

153 x 95 cm

Técnica

Óleo sobre tela

Suporte

Pintura

Tema

A Figura Humana Retratos e Caricaturas

Período

36 - SÉCULO XVI

Index Iconografico

1700C - Retratos Pintura; 1700C1 - Retratos contemporâneos

Autor

Luiz Marques

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