Retrato de Ariosto?; retrato de Michelangelo?. Detalhe do Párnaso de Rafael

O afresco de Isaías da Capela Sistina foi descoberto antes de 3 de junho de 1509 (final da primeira etapa dos trabalhos segundo a cronologia de Charles de Tolnay). O momento da fulminação de Rafael pelos afrescos da Sistina precede imediatamente, portanto, o da execução do afresco do Párnaso por Rafael na Stanza della Segnatura, em 1510-1511.

Essa proximidade cronológica reforça a hipótese de Tolnay [1962:167], segundo a qual Rafael teria representado Michelangelo neste detalhe do afresco. Tolnay equivocava-se na identificação do personagem, que ele acreditava ser Antonio Tebaldi, chamado Tebaldeo (1463 1537), poeta e humanista de Ferrara, secretário de Lucrezia Borgia e mestre de Isabella d´Este. Tebaldeo não é, de fato, a primeira, mas a quarta figura, retratada em perfil, no grupo dos poetas bucólicos, à direita do afresco, como demonstrado por Reale [1999:84-86].

Rafael era, além disso, amigo pessoal de Tebaldeo e não é razoável que lhe emprestasse os traços fisionômicos de Michelangelo. Segundo Redig de Campos [1952:51-58], Rafael, de resto, tê-lo-ia retratado duas vezes, a primeira neste afresco de 1511, e a segunda em 1516.

Esta figura que Tolnay considerava um retrato de Michelangelo como poeta não foi ainda identificada. Segundo Reale [1999:81-82], tratar-se-ia da “provável figura de Ariosto”, mas a hipótese não é inteiramente convincente.

Não há retratos de Michelangelo na idade de 35 anos, de modo que não se dispõe de um parâmetro seguro de comparação. Isto posto, são inegáveis as similitudes entre os traços fisionômicos básicos do artista e a desse poeta do Párnaso. Cf. Redig de Campos [1942:205], Idem [1973:13] e Agostinelli Scipioni [1978:73].

A questão permanece aberta e deve ser, de qualquer maneira, balizada por uma premissa: dado que em 1510-1511 a produção poética de Michelangelo era ainda incipiente (o fato que apenas 5 ou 6 poemas anteriores a 1510 tenham-se conservado é bom indício disto) e que esta não será apreciada senão a partir dos anos 1530, Rafael não visa evidentemente aqui introduzir Michelangelo no Párnaso, como poeta.

Se retrato há, é claro que se trata de um retrato de homenagem, com o sentido emblemático de um ut pictura poesis, da mesma maneira que a figura de Heráclito da Escola de Atenas, pintada como se sabe após a morte de Bramante em 1514, seria emblema adequado – haja vista a imagem que se tinha então de Heráclito -, do “temperamento” melancólico, introspectivo e pensieroso de Michelangelo. Figurações ambas, portanto, simbólicas, que remetem a um segundo plano a questão da semelhança fisionômica com o retratado.

De tipo semelhante, pois baseada na aliança entre engenho arquitetônico e conhecimento matemático, será a associação entre Arquimedes (ou Euclides) e Bramante, sempre na Escola de Atenas.

Luiz Marques
28/10/2010

Artista

Rafael

Data

1510/ 1511

Local

Vaticano, Stanza della Segnatura

Medidas

desconhecidas

Técnica

Afresco

Suporte

Pintura

Tema

Alegorias e Temas Artísticos Morais e Psicológicos

Período

36 - SÉCULO XVI

Index Iconografico

12Apo - APOLO Febo, Hélio, Sol; 12Apo2 - Apolo e o Párnaso; 1159 - A Poesia e seus Gêneros; 1700C3 - Artistas e Autoretratos

Autor

Luiz Marques

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