Retrato de Elisabetta Gonzaga

“O quadro traz no verso a inscrição: “”Isabella Mantovana, moglie del duca Guido””.

Elisabetta Gonzaga (1471-1526) é uma das mais importantes personalidades femininas do Renascimento e bastaria para demonstrá-lo sua posição de anfitriã, inspiradora e animadora das quatro noitadas encenadas por Baldassare Castiglione no diálogo Il Libro del Cortegiano, concebido e redigido entre 1506 e 1528.

A constelação de literatos, artistas e personalidades de vulto excepcional, oriundos dos maiores centros culturais da Itália, hóspedes da corte de Urbino orquestrada por Elisabetta Gonzaga e que Castiglione põe em cena no Il Libro del Cortegiano, é assim composta:

A – as anfitriãs e demais personagens de Urbino:
1 – a duquesa Elisabetta Gonzaga, esposa do duque de Urbino Guidobaldo da Montefeltro, morto em 1508;
2 – Emilia Pia, esposa do conde Antonio da Montefeltro, irmão natural do duque;
3 – Ludovico Pio, irmão de Emilia Pia
4 – Morello da Ortona, antigo condottiere de Urbino;

B – o grupo pertencente a ou dependente da Casa Medici:
5 – Giuliano de´ Medici (1479-1516), duque de Nemours (desde 1515), filho menor de Lorenzo il Magnifico e até 1513 exilado em Urbino
6 – o Cardeal Bernardo Dovizi da Bibbiena (1470-1520), autor da Calandria
7 – Bernardo Accolti (L´Unico Aretino) 1465-1535, poeta e improvisador.

C – De Gênova:
8 – Federico Fregoso, morto em 1541, participa também do diálogo de Pietro Bembo Prose della volgar lingua.
9 – Ottaviano Fregoso (mais tarde doge de Gênova e aprisionado em 1522, morre em Ischia, em 1524)

D – de Verona
10 – o conde Ludovico da Canossa (1476-1532)

E – de Mântua:
11 – Cesare Gonzaga, primo de Castiglione, morre em 1512, em Bolonha, combatendo contra os franceses
12 – o próprio Baldassare Castiglione
13 – Gian Cristoforo Romano, escultor, medalhista, grande entendedor de música e prócer da cultura antiquária, ativo em Milão, em Roma sob Júlio II, mas sobretudo em Ferrara e em Mântua

F – de Veneza:
14 – Pietro Bembo (1470-1547)

G – de Nápoles:
15 – Pietro da Napoli, gentiluomo a serviço de Júlio II

H – Outros:
16 – Gaspar Pallavicino (1485/6-1511), marquês de Cortemaggiore (Piacenza) e amigo de Castiglione
17 – Roberto da Bari

I – os dedicatários:
18 – Don Michel De Silva, Bispo de Viseu, dedicatário da obra quando publicada em 1528
19 – Alfonso Ariosto (1475 – 1525) primo de Ludovico Ariosto. Dedicatário dos quatro livros do tratado nas duas primeiras redações.

O retrato foi talvez pintado em pendant com o de Guidobaldo da Montefeltre*. A atribuição a Rafael é tardia e foi objeto de alguma descrença por parte dos estudiosos, que notam o caráter arcaico da frontalidade da pose e sua “”pouca qualidade””, conforme sintetiza em 1966 De Vecchi, que, de resto, subscreve estes pareceres negativos. Mais recentemente, tais reservas dissiparam-se e o retrato foi incluído de modo mais consensual no catálogo juvenil do mestre por exemplo por Gregori e Henry/Plazzotta.

Em Florença desde 1504, Rafael mantém contudo ainda fortes vínculos com Urbino e retorna diversas vezes entre 1504 e 1507 à cidade natal, onde compra uma propriedade e provê a corte com retratos, em especial os do duque, da duquesa, da irmã do duque, Giovanna della Rovere e do herdeiro, Francesco Maria della Rovere, todos eles conservados nos Uffizi.

Segunda filha de Federico I Gonzaga, marquês de Mântua e de Margaret de Wittelsbach, pertencente a uma aristocrática linhagem da Baviera, Elisabetta desposa Guidobaldo em 1489, mas a união não gera filhos. O retrato do casal é talvez comemorativo de seu retorno a Urbino, em 1504, após sua expulsão em 1502 por César Borgia. Nele, a duquesa se faz representar com vestes em veludo preto e retângulos de ouro, muito similares às que são descritas no Il Libro del Cortigiano por ocasião de sua visita a Ferrara, acompanhando Lucrezia Borgia, que devia então se casar com Alfonso d´Este.

São notáveis no retrato o diadema em forma de escorpião, a expressão mortiça e as pálpebras pesadas de Elisabetta, redundando em um efeito geral de profunda melancolia.

Luiz Marques
20/10/2010

Bibliografia
1966 – P. De Vecchi, L´Opera completa di Raffaello. Milão, p. 92;
1984 – M. Gregori, Raffaello a Firenze, Florença, catálogo da exposição;
2004 – Tom Henry, Carol Plazzotta, Raphael from Urbino to Rome, Londres, catálogo da exposição, p. 45

Artista

Rafael

Data

1504/ 1506

Local

Florença, Galleria degli Uffizi

Medidas

52,5 x 37,3 cm

Técnica

Óleo sobre madeira

Suporte

Pintura

Tema

A Figura Humana Retratos e Caricaturas

Período

36 - SÉCULO XVI

Index Iconografico

1700C1 - Personagens contemporâneas

Autor

Luiz Marques

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