Retrato de Francesco Maria della Rovere, duque de Urbino

Registro inventarial: inv. 1890 n. 926

Filho de Giovanni Della Rovere, prefeito de Roma, e de
Giovanna, filha de Federico da Montefeltro (duque de Urbino
até 1482, data de sua morte), Francesco Maria della Rovere
(1490-1538) é adotado em 18 de setembro de 1504 por
Guidubaldo, novo duque de Urbino, graças à intervenção de
outro tio, Júlio II (Giuliano Della Rovere), papa de 1503 a
1513. Em 1508, com a morte de Guidubaldo, Francesco Maria
torna-se duque de Urbino.

No comando de seu ducado, um feudo eclesiástico, Francesco
Maria é nomeado por Júlio II Capitano generale dos
Estados Pontifícios e, a tal título, empreende a retomada
dos feudos arrebatados em 1502 por Cesare Borgia (entre os
quais sua cidade natal, Senigallia), capitaneando, em
seguida, as desastrosas guerras contra Ferrara e Veneza.

O caráter colérico de Francesco Maria manifesta-se de modo
inequívoco quando, em 1511, mata com uma punhalada o cardeal
Francesco Alidosi, personagem tão célebre por sua crueldade
(talvez a se reconhecer num dos mais belos retratos de
Rafael), quanto por sua função de mediador entre Júlio II e
Michelangelo no contrato para os afrescos da abóbada da
Capela Sistina.

A morte de Júlio II em 1513 marca um ponto de inflexão
decisivo na vida de Francesco Maria, bem como na história
dos Della Rovere no contexto da geopolítica peninsular. De
1516 a 1521, Francesco Maria é expulso de seu ducado por
Leão X, que nomeia em seu lugar Lorenzo de´ Medici (1492-
1519), seu sobrinho e neto de Lorenzo il Magnifico.

Dez anos depois, reencontramos o duque na posição de aliado
dos Medici, quando Clemente VII o nomeia Comandante da Liga
Santa. Sua passividade em face do avanço das tropas de
Carlos V foi um dos fatores que desencadeiam o Saque de Roma
de 1527. Em Hamlet, Shakespeare aludiria à sua morte
por envenenamento, na peça “The Murder of Gonzago”, cuja
encenação por uma troupe de atores é realizada como uma
mise en abyme, isto é, como um drama dentro do drama.

O retrato em questão, assinado “Titianus F.”, tem por
pendant o da esposa do duque, Eleonora Gonzaga*
(1493-1570) – filha primogênita de Francesco II Gonzaga e de
Isabella d´Este -, amiga de Pietro Bembo, Jacopo Sadoleto,
Baldessar Castiglione e Torquato Tasso, e uma das mais
notáveis personalidades femininas do seu século.

A pintura é mencionada pela primeira vez em uma carta de 17
de julho de 1536 escrita pelo duque a Gian Giacomo Leonardi,
na qual pede o retorno de sua armadura, enviada a Veneza
para servir de modelo a Tiziano, bem como, possivelmente, um
fólio para este ou outro retrato, já que tal estudo*,
quadriculado, hoje conservado no GDS dos Uffizi (inv. n.
29767), retrata o duque de corpo inteiro.

A pose do duque com o cetro e o braço direito em agressivo
escorço, ideia retomada ostensivamente por Barocci no
retrato de Francesco Maria II della Rovere* (1571-72), tem
por precedente imediato o retrato do Imperador Claudio,
pertencente à série dos Césares pintada por Tiziano
para o palácio ducal de Mântua, retrato perdido, mas
conhecido através das gravuras de Sadeler.

O retrato é tanto do semblante pétreo e do olhar fulminante
do duque quanto de sua armadura, talvez de fatura alemã, em
um equilíbrio bem notado por Pietro Aretino na conhecida
carta de 7 de novembro de 1537 à Veronica Gambara, seguida
por um soneto, de que se reproduzem aqui os tercetos finais:

Egli ha il terror fra l´´uno e l´´altro ciglio,
L´´animo in gli occhi, e l´´alterezza in fronte,
Nel cui spazio l´´onor siede, e ´´l consiglio.

Nel busto armato e ne le braccia pronte
Arde il valor, che guarda dal periglio
Italia sacra a sue virtuti conte

É marcante na composição a linha muito elevada do móvel
coberto pelo tapete de veludo vermelho que divide
horizontalmente o fundo do quadro em dois campos
diferenciados. Pousando sobre o veludo, o elmo ducal, a
esplêndida borgognotta, com seu vistoso penacho de
pura luz e um fantasmagórico dragão (alusivo aos laços do
duque com a casa de Aragão), tem valor de uma natureza-morta
independente do retratado.

Os três cetros à direita – alusivos (como já notado por
Aretino) ao comando que lhe delegam a Igreja, Veneza e
Florença – portam a divisa ducal Se sibi e as chaves
de São Pedro. Eles estão em evidente contraposto com o elmo,
a designar a dupla virtù do duque, de intrépido
comandante militar e de sábio governante.

Luiz Marques
03/08/2012

Bibliografia:
1978 – F.P. Squellati, in M. Gregori, Tiziano nelle Gallerie
Fiorentine. Catálogo da exposição, Florença.
1990 – A. Natali, in F. Valcanover et alia, Titian. Prince
of Painters. Catálogo da exposição. Londres: Prestel, pp.
227-229.
1998 – G. Benzoni, “Francesco Maria Della Rovere”. DBI, ad
vocem (em rede).

Artista

TIZIANO Vecellio

Data

1536/ 1538

Local

Florença, Galleria degli Uffizi

Medidas

114 x 103 cm

Técnica

Óleo sobre tela

Suporte

Pintura

Tema

A Figura Humana Retratos e Caricaturas

Período

36 - SÉCULO XVI

Index Iconografico

1700C - Retratos Pintura; 1700C1 - Retratos contemporâneos

Autor

Luiz Marques

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