Retrato de Homem com pele e relógio (Alvise Contarini?)

Paris Bordon (Treviso, 1500 – Veneza, 1571) tem sua formação
na Veneza do segundo decênio, subjugada pelas conjunções
entre os tonalismos de Giorgione, morto em 1510, de Giovanni
Bellini, morto em 1516, e de Tiziano, em cujo ateliê inicia
sua atividade.

Não obstante o peso de tais referências, Bordon mostrar-se-á
na maturidade um dos pintores mais atentos à utilização de
um modelado mais michelangiano e o emprego de arquiteturas
cenográficas inspiradas em Sebastiano Serlio, como o atesta
a mais famosa de suas obras-primas de juventude, “A
Consignação do Anel ao Doge”, da Galleria dell´Accademia de
Veneza, de 1534-35.

O retrato foi adquirido pela Galeria Wildenstein como um
Tiziano, sendo atribuído a este mestre por estudiosos como
Lionello Venturi (que o datou de 1550c.), Suida (que o datou
de 1540c.), Berenson, Bologna e Pallucchini, que mais tarde,
atribuiu a obra a um discípulo de Tiziano. O Catálogo de
Tiziano de Wethey em 1975 já inclui a obra na seção dedicada
a discípulos de Tiziano.

Em 1959, Pietro M. Bardi atribuiu a obra a Paris Bordon,
proposta aceita de modo unânime. A obra foi datada seja de
1525c. (Wethey), seja de 1545c. (Berenson e Wildenstein).

A notícia transmitida por Abraham Hume (1829, p. 66) de que
o retrato encontrava-se originalmente no Palácio Contarini,
em Veneza, suscitou a hipótese de que se tratasse de um
membro dessa prestigiosa família veneziana.

Em uma carta de 11 de março de 1994 ao Masp, Eleonora
Fatigati identificou o modelo com Alvise Contarini (1477-
1557), baseando-se em duas comparações: um busto de mármore
e um retrato no retábulo “S. Agnes ressuscita Licínio” de
Jacopo Tintoretto (1518-1594), conservado no altar da Capela
Contarini da igreja da Madonna dell´Orto em Veneza.

São fortes as semelhanças fisionômicas entre o retratado
e a figura que se curva no primeiro plano da composição,
malgrado sua forte diferença de idade. Se, como propõem
Arslan e Rodolfo Palucchini, o retábulo é dos anos
1570, seria necessário supor que o retrato de Alvise no
retábulo da Madona dell´Orto seja póstumo, já que este morre
em 1557.

Contudo, diversos estudiosos, como Berken, Mayer, Pittaluga,
Tietze e Berenson, consideram-no obra juvenil de Robusti,
entre os anos 1540 e 1550, o que é perfeitamente compatível
com a idade presumida do retrato no retábulo veneziano, que
é a de um homem beirando os 70 anos.

A se confirmar a identificação de Alvise Contarini na obra
do Masp, uma datação em torno de 1525-1530 seria a mais
provável, pois, nascido em 1477, estaria ele aí na casa do
50 anos. Tal proposta de datação é reforçada pela comparação
com o “Retrato de homem barbado”, datado de 1523, na Alte
Pinakothek de Munique, com o retrato homônimo na Coleção
Liechtenstein de Viena, datado de 1533, e pela “Dama com o
Filho” do Ermitage, também desses anos, os dois últimos
colocados no mesmo nicho do retrato do Masp, com toda a
probabilidade um cenário disponível no ateliê de Bordon.

Tais retratos aproximam-se também pela comum filiação à
retratística de Tiziano dos anos 1520 e por neles não se
acusarem ainda a ataraxia e a impessoalidade do retrato de
corte emergente nos decênios sucessivos.

De fato, ainda que Fossaluzza (1985, p. 193) considere o
sereno retrato do Masp mais celebrativo que intimista, é
preciso manter em mente sua densidade psicológica, na melhor
tradição da retratística de Giorgione.

Assim como no retrato de Cristoforo Madruzzo, de Tiziano, no
Museu de São Paulo, o retratado mostra um relógio de mesa,
um orologio da tavola, idêntico aos conservados, por
exemplo, no Museu Poldi Pezzoli de Milão. Segundo Gianguido
Sambonet (apud Camesasca, 1988) tais relógios estavam
em uso desde inícios do século XVI e não dificultam,
portanto, uma datação do retrato nos anos 1525-1530.

Ele poderia representar uma metáfora do fluxo do tempo, de
cunho moralizante ou melancólico, traço recorrente da
retratístisca do período e afim à iconografia da
Vanitas.

Pesquisas em curso de Maíra Canina Silvestrin e de Isabel
Hargrave sobre o emprego do relógio na pintura do século XVI
podem, contudo, abrir outras perspectivas de interpretação
do sentido deste objeto na retratística do século.

Luiz Marques
15/12/2011

Bibliografia:
1983 – A. Baiocchi, “Alvise Contarini”. DBI, 28, ad vocem.
1985 – G. Fossaluzza, “Qualche ricupero al Catalogo
ritrattistico del Bordon”. Paris Bordon e il suo tempo. Atti
del Convegno Internazionale di Studi. Treviso, pp. 182-202.
1988 – E. Camesasca, “Portrait d´un notable”. De Raphael à
Corot, Trésors du Musée d´Art de São Paulo. Catálogo da
exposição, Martigny, Fondation Pierre Giannada, pp. 92-94.
1994 – R. Pallucchini, Jacopo Tintoretto. Le opere sacre e
profane. Milão: Electa, 2 volumes, vol. I, cat. 371, p. 208.
2000 – L. Marques (org.), Catálogo geral do Museu de Arte de
São Paulo Assis Chateaubriand, São Paulo: Prêmio Editorial,
4 volumes, p. 80.

Artista

BORDON, Paris

Data

1525c. / 1535c.

Local

São Paulo, Museu de Arte de São Paulo

Medidas

94 x 70 cm

Técnica

Óleo sobre tela

Suporte

Pintura

Tema

A Figura Humana Retratos e Caricaturas

Período

36 - SÉCULO XVI

Index Iconografico

1700C - Retratos Pintura; 1700C1 - Retratos contemporâneos

Autor

Luiz Marques

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