Retrato de Jovem com Alaude

Registro inventarial: inv. n. 948

Proveniente da coleção Vassalli del Majno, em Milão, a obra traz no cartellino a data 1520 e é conhecida também em uma réplica autógrafa conservada em Boston, Isabella Stewart Gardner Museum, igualmente datada de 1520. A existência de dez versões deste retrato, três dos quais em outros museus milaneses – Pinacoteca Ambrosiana, Castello Sforzesco de Milão e Poldi Pezzoli – e outros de proveniência lombarda mostra a importância do protótipo e possivelmente também da anônima retratada, evidentemente milanesa.

Originalmente, a pintura representava uma Santa Cecília, pois se pode ainda entrever os vestígios de um nimbo em torno de sua cabeça (não perceptível na fotografia). Trata-se, sem dúvida, de um retrato de uma dama como S. Cecília, o que suscitou no século XIX a fantasiosa conjectura, discutida por Marani, Shell e Sironi, de que o quadro derivasse de um hipotético segundo retrato da amante de Ludovico il Moro, Cecilia Gallerani (1473-1536), por Leonardo da Vinci (o primeiro sendo o retrato de Dama com arminho*, no Museu de Cracóvia).

A figura, retratada com o colo e os ombros sensualmente nus, traja um suntuoso manto de veludo verde-escuro, cravejado de pedras preciosas, que se repetem ainda nas mangas de seda.

O fato, além disso, de fazer-se representar como musicista reforça a indicação de sua posição de cortesã altamente prestigiosa na corte milanesa em torno de 1520, governada
ainda pelos franceses.

Por outro lado, o caráter genérico da fisionomia e a indicação precisa da partitura imprimem no retrato um forte conteúdo simbólico e uma pista importante para a identificação da personagem encontra-se talvez justamente nesta partitura, exibida ostensivamente.

Não se deve esquecer que, em âmbito musical, Milão é, em 1520, dominada por Franchino Gaffurio, que publicara apenas dois anos antes seu terceiro e mais importante tratado, o De harmonia musicorum instrumentorum opus*, no qual disserta sobre a Harmonia, definida como discordia concors (concórdia na discórdia), isto é, como combinação de consonâncias e dissonâncias que espelha a harmona mundi. A presença tão saliente da música neste retrato pode aludir a um discurso do gênero.

O alaúde de 11 cordas (2 para o baixo, duas para o bordão, duas para o tenor, duas para a mezzana (contralto) e uma para o canto) é um objeto de grande beleza, com sua decoração de gosto árabe. Bartolomeo devia conhecer música pois reproduz com fidelidade o instrumento, a posição das mãos da musicista e a partitura a três vozes.

Ativo em Veneza e Brescia, bem como na corte de Ferrara, Bartolomeo Veneto (morto em Turim em 1531) acabara em 1520 de se instalar em Milão, onde assimilará, ao lado de Andrea Solario (morto em 1524), o universo da retratística leonardiana. O retrato desta lutista é um exemplo eloquente dessa assimilação.

Luiz Marques
03/12/2010

Bibliografia:
1935 – E. Modigliani, Catalogo della R. Pinacoteca di Brera in Milano. Milão, p. 63
1974 – Ph. Hendy, European and American Paintings in the Isabella Stewart Gardner Museum. Boston, p. 16
1978 – B. Disertori, La Musica nei Quadri Antichi. Calliano, Manfrini Editori, pp. 29-32
1987 – P.C. Marani, Leonardo e i Leonardeschi a Brera. Florença, Cantini, p. 195
1992 – J. Shell, G. Sironi, “Cecilia Gallerani: Leonardo´s Lady with an Ermine”. Artibus et Historiae, 13, 25, pp. 47-66
1996 – T. Nichols, Bartolomeo Veneto. The Dictionary of Art, vol. 3, ad vocem

Artista

Bartolomeo Veneto

Data

1520

Local

Milão, Pinacoteca di Brera

Medidas

65 x 50 cm

Técnica

Óleo sobre madeira

Suporte

Pintura

Tema

Alegorias e Temas Artísticos Morais e Psicológicos

Período

36 - SÉCULO XVI

Index Iconografico

806 - Imagens e Ciclos Biográficos de santos; 806ceci - Santa Cecília; 1162 - A Música; 1162D - A partitura; 1700C - Retratos Pintura; 1700C1 - Retratos Contemporâneos

Autor

Luiz Marques

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