Retrato de Jovem veneziano (Retrato Goldman)

O nome do retrato advém de seu último proprietário, em New York, Henry Goldman.

Trata-se de uma das poses mais desconcertantes da retratística do Renascimento: o retratado fita desafiadoramente e com menosprezo o espectador, agressividade sublinhada ainda pelo olhar de soslaio, pelos lábios comprimidos e pelo punho cerrado que parece descer como um soco sobre o livro. A extrema virilidade da figura, vestida em preto, sem adornos, recortada entre a parede cinza chumbo e um parapeito anguloso e cortante, acrescenta ainda mais hostilidade ao efeito geral.

Aposto a este parapeito, a inscrição “V VO” foi lida tentativamente como Virtus Vincit Omnia (A Virtude tudo vence), presente também na frisa em afresco de Giorgione na assim chamada Casa Pellizzari, de Castelfranco, mote que bem se coaduna com o sentimento que emana do retrato.

Por outro lado, o intervalo entre o primeiro e o segundo “V” permite supor a presença de um “I”, caso em que se poderia ler: “VIVO” ou “Vivus viVO” isto é, pintado ao vivo, em presença do modelo, a exemplo do Retrato Giustiniani*, de Berlim e, supostamente (a se admitir que tais inscrições sejam autênticas) de outros retratos venezianos de inícios do século XVI.

Estudando estes casos em relação com os seis retratos gravados de Dürer (Meder, 100-105), Nancy Thompson de Grummond (1975) acredita poder concluir que a letra “V” significa sempre o adjetivo latino vivus ou uma forma cognata de mesmo significado, alusiva à tradição do retrato romano, que, como se sabe, era feito com frequência (no período republicano) a partir da máscara mortuária.

Esta outra hipótese de leitura é igualmente plausível, não apenas porque explicita a ruptura com a tradição do parapeito como signo do retrato funerário (de matriz flamenga), mas também porque é bem condizente com a vontade de exacerbação expressiva da fisionomia.

A paisagem que se vislumbra pela janela, ainda que em muito mau estado de conservação (como, de resto, largas áreas da pintura), é claramente Veneza. O raio-X mostrou que o lenço (ou luva ou ainda uma bolsa?) que a mão do retratado segura foi outrora o cabo de uma espada ou de um punhal e, em seguida, um rolo de pergaminho. De compreensão igualmente difícil é a presença do livro, em especial em alguém que parece tomar as devidas distâncias do gênero do retrato de humanista.

Desde 1920 e sobretudo desde 1962, data de sua restauração, o retrato foi frequentemente atribuído a Tiziano jovem, e de modo muito circunstanciado por Ballarin, seguido, por exemplo, por Spinoza (2006).

Anderson prefere retirá-lo do catálogo de Tiziano e de Giorgione, insistindo sobre inépcias executivas no desenho, difíceis de perceber, mas bastante partilhadas pela crítica. Outras hipóteses contemplam os nomes de Cariani, Palma, Licinio e Pordenone.

Luiz Marques
26/10/2010

Bibliografia
1968 – P. Zampetti, Tout l´oeuvre peint de Giorgione, Paris, p. 99
1993 – A. Ballarin, in M. Laclotte, Le siècle de Titien. L´âge d´or de la peinture à Venise, catálogo da exposição, p. 375
1995 – M. Lucco, Giorgione, Milão, p. 141
1997 – J. Anderson, Giorgione. The painter of “poetic brevity”. Paris, New York, p. 345
2006 – N. Spinosa, Tiziano e il ritratto di corte da Raffaello ai Carracci. Nápoles, catálogo da exposição, p. 108

Artista

Giorgione ou Tiziano

Data

1507/ 1510c.

Local

Washington, National Galery

Medidas

76 x 64 cm

Técnica

Óleo sobre tela

Suporte

Pintura

Tema

A Figura Humana Retratos e Caricaturas

Período

36 - SÉCULO XVI

Index Iconografico

1700C1 - Retratos contemporâneos

Autor

Luiz Marques

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