Retrato de Jovem (Veronica Gambara? Ginevra Rangone?)

“Registro inventarial: inv. n. 5555

Correggio (1489c.-1534) assina a obra, sobre o tronco de árvore, com a forma latinizada de Antonio Allegri: “”Anton[ius] Laet[us]””

Correggio, não propriamente um retratista, executa com este retrato de tamanho natural e de excepcional imponência um dos momentos mais altos da retratística italiana.

A figura senta-se em três-quartos e apenas seus olhos, de um negro profundo, voltam-se para o espectador, fitando-o em um ponto ligeiramente abaixo de seu olhar, como a sublinhar sua modestia.

As mangas do vestido desenvolvem-se em ritmos muito amplificados e de modo totalmente independente do corpo da figura. A sobriedade cromática sugere um conhecimento dos retratos romanos em torno de 1511 / 1515 de Sebastiano del Piombo. De fato, manchas de marron-café e de branco-marfim da seda e do colo e ombros nus alternam-se sobre esta pirâmide majestosa, alternância que em certa medida se repropõe nos tons claros e escuros da cabeça, encimada por cabelos castanhos recobertos por uma rede de esposa, adornada com fios de ouro e um diadema.

A figura recorta-se sobre uma paisagem, à direita, de um sfumato tipicamente correggiano e, à esquerda, sobre um arvoredo em que se distinguem o loureiro sempre-verde que parece coroá-la e uma árvore com folhas outonais, contraste rico de significado como se verá em seguida.

Três detalhes captam a atenção: o cordão da Ordem Terceira franciscana sobre o joelho, o escapulário sustentado pelo cordão de ouro que desce do pescoço e a pátena.

Como nova Artemísia, personagem emblemática da fidelidade conjugal, a retratada segura uma pátena na qual se lê: NEPENTHES, um mítico antídoto à tristeza, mencionado na Odisseia (4,220):

“”Helena al excogita: anexa ao vinho
De nepentes porção, que aplaque as iras
E as tristezas desterre; o que a bebesse
Não brotava uma lágrima no dia,
Por mãe nem genitor, irmão nem filho,
Que visse degolar (…)””
(tradução de Odorico Mendes)

Trata-se, portanto, claramente, de um retrato de viuvez e a conjugação da árvore outonal e do loureiro funciona como um duplo retrato metafórico do casal. A presença do loureiro, árvore de cujas folhas se tece a coroa dos poetas laureados, levou Roberto Longhi (1958) a cogitar na grande poeta Veronica Gambara (1485 – 1550), prima e esposa do Conde Giberto IX da Correggio. Por volta de 1517, Veronica era já poeta afirmada, além de pupila e correspondente de Pietro Bembo.

Outra possibilidade, fortalecida pelos signos de franciscana religiosidade, seria Ginevra Rangone, também ela cantada por Ariosto e esposa de Giangaleazzo da Correggio. Ambos faleceram entre 1517 e 1518.

Periti chama a atenção para o curioso contraste entre o caráter lutuoso do retrato e a assinatura de Corrreggio, frisando sua própria laetitia.

Luiz Marques
05/11/2010

Bibliografia:
1958 – R. Longhi, “”Le fasi del Correggio giovine e l´esigenza del suo viaggio romano””. Paragone, 101, pp. 34-53.
1970 – A.C. Quintavalle, L´Opera completa del Correggio. Milão, Rizzoli, p. 94
1990 – C. Eisler, Paintings in the Hermitage, New York, p. 465
1997 – D. Ekserdjian, Correggio, Yale University Press, p. 75
2004 – G. Periti, “”From Allegri to Laetus-Lieto: The Shaping of Correggio´s Artistic Distinctivenes””. Art Bulletin, 86, 3, Setembro, pp. 459-476.”

Artista

CORREGGIO (Antonio Allegri)

Data

1517/ 1519

Local

São Petersburgo, Museu do Ermitage

Medidas

103 x 87,5 cm

Técnica

Óleo sobre tela

Suporte

Pintura

Tema

A Figura Humana Retratos e Caricaturas

Período

36 - SÉCULO XVI

Index Iconografico

1700C - Retratos Pintura; 1700C1 - Retratos Contemporâneos

Autor

Luiz Marques

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