Retrato póstumo do Doge Andrea Gritti

“Registro inventarial: Samuel H. Kress Collection 1961.9.45 (1408)

O retrato traz a inscrição, cuja autenticidade foi de início posta em dúvida, mas em seguida atestada durante sua restauração:

“”Andreas Gritti Doge / di Venetia / Titianus E.F.”” (por Eques Fecit, isto é, Tiziano, Cavaleiro, fez).

O artista ostenta com evidente orgulho seu título de nobreza, recentemente adquirido.

Outras autorias para este retrato foram outrora cogitadas, tais como Pordenone (Cavalcaselle), Palma Giovane (Mayer) e Tintoretto (Thode), mas a atribuição a Tiziano está hoje estabelecida e Allan Brown chega mesmo a afirmar que “”este retrato do Doge Andrea Gritti representa a retratística de Tiziano de modo superlativo (“”at his best””).

Como pintor oficial da Serenissima, era dever de Tiziano retratar seus doges, uma vez eleitos. Um destes retratos era colocado na Sala del Maggior Consiglio; o outro, de caráter votivo, na Sala del Collegio. Por dois retratos do Doge Andrea Gritti (1454 ou 1455 – 1538) pintados quando de sua eleição à magistratura suprema de Veneza, Tiziano recebeu, como de hábito, 25 scudi, em 18 de agosto de 1540, dois anos após o falecimento do grande governante. Mas ambos os retratos foram destruídos no incêndio de 1577, um ano depois da morte de Tiziano e coube a Tintoretto substituí-los.

Em 1648, Carlo Ridolfi menciona a existência de um retrato de Andrea Gritti por Tiziano, retrato “”de que se vêem muitas cópias””. Trata-se do retrato conservado em New York, The Metropolitan Museum of Art (ateliê), o qual, segundo Allan Brown, é uma versão de ateliê. Uma das cópias poderia ser a versão conservada em Kenosha (Wisconsin).

A presente versão mostra uma liberdade de pincelada, uma audácia na construção das formas por manchas e uma diluição extrema das cores apostas em veladuras que deixam visível a trama da tela. Tais características são incompatíveis com o estilo de Tiziano nos anos 1530. Elas são, ao contrário, muito próximas das do Retrato de Paulo III e de seus netos* na Galleria Nazionale di Capodimonte em Nápoles, executado quando da estada de Tiziano em Roma em 1545 / 1546. Tal proximidade, inclusive na seleção das cores, é decisiva para a datação da presente obra, que deve por conseguinte ser considerada um retrato póstumo.

Allan Brown nota com argúcia o contraposto entre o corpo e a cabeça, que sublinham o caráter resoluto do doge. Andrea Gritti é mostrado de modo dinâmico, como em uma procissão cerimonial, de modo que Tiziano converte o gênero do Retrato de Estadista (State Portrait) em um retrato de ação (action portrait).

O estudioso cogita que o retrato possa ter sido encomendado pela família como um memorial do grande estadista, eleito doge em 1523, após se distinguir como comandante militar e como diplomata. Seu excepcionalmente longo governo (1523/1538) foi marcado pela manutenção da independência política de Veneza e por um grande apogeu artístico, dominado pelas figuras de Tiziano, Jacopo Sansovino e Pietro Aretino.

Luiz Marques
01/01/2011

Bibliografia:
1648 C. Ridolfi, Le Meraviglie dell´Arte ovvero Le Vite degli Illustri Pittori Veneti e dello Stato [Veneza]. Ed. D.T. von Hadeln (Berlim, 1914-24), Roma, 1965, 2 volumes.
1968 – F. Rusk Shapley, Paintings of the Kress Collection. Italian Schools, XV-XVI Centuries
1969 – F. Valcanover, L´Opera Completa di Tiziano. Milão, Rizzoli, p. 112
1990 – D. Allan Brown (et alia), Titian. Prince of Painters, Catálogo da exposição, Veneza, Washington, Prestel, p. 252″

Artista

TIZIANO Vecellio

Data

1545/ 1546

Local

Washington, National Galery

Medidas

133 x 103 cm

Técnica

Óleo sobre tela

Suporte

Pintura

Tema

A Figura Humana Retratos e Caricaturas

Período

36 - SÉCULO XVI

Index Iconografico

1700C - Retratos Pintura; 1700C1 - Retratos Contemporâneos

Autor

Luiz Marques

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