Santa Cecília em êxtase, S. Paulo, S. João Evangelista e Maria Madalena

“A pintura foi encomendada por Elena Dugioli dall´Olio para a capela de sua família em San Giovanni in Monte, Bolonha. Embora Rafael não tenha sido o primeiro artista a representar a santa com os instrumentos musicais, é essa a obra que torna Santa Cecília popular como padroeira da música.

Contra um fundo de paisagem, Cecília, ladeada por quatro santos, dois a dois, segura um órgão e tem diversos instrumentos musicais a seus pés, alguns deles quebrados: uma natureza-morta que talvez fale da efemeridade da harmonia humana em relação à divina Representada pelo coro de anjos ao qual Cecília, solitária, ergue os olhos, e parece ser a única a escutar. São Paulo, contrapondo-se à Madalena, que nos dirige diretamente o olhar, observa os instrumentos ao chão em atitude reflexiva. Atrás, São João Evangelista e Santo Agostinho se entreolham, fechando a paisagem e a cena.

A idéia da santa como padroeira da música teria nascido da má interpretação de um canto laudatório executado no dia em que a santa é comemorada. Esse canto, contudo, faz referência à música dentro do coração da santa, e diz: “”cantantibus organis Caecilia Domino decantabat: Fiat cor meum immacolatum, ut non confundar”” [Dussler, 1971: 39-40].

Como observam Ferino-Pagden e Zancan [1989: 118], trata-se de uma representação paradigmática da presença mística do divino no humano, onde a devoção é dirigida não a uma imagem divina, mas a um estado místico, numa notação que será fundamental para a pintura devocional barroca.

A respeito desta obra, não há muitas divergências atributivas. A principal questão é posta por Vasari ao remeter a Giovanni da Udine a execução da maravilhosa natureza-morta composta por instrumentos musicais. Para esse autor, “”quello che importò molto di più”” é que Giovanni “”fece il suo dipinto cosi simile a quello di Raffaello, che pare d´una medesima mano.”” Quanto a uma possível participação de Giulio Romano (1499?-1546), essa é entrevista, de modo sumário, por autores do século XIX, como Quatremère de Quincy [1824: 126], que enxerga o toque de Giulio no “”aspecto forçado”” do quadro: “”… cette pratique qu´on attribue encore plus à Jules Romain qu´à lui [Rafael]… De là l´aspect forcé du tableau de sainte Cécile””; ou como Carlo D´Arco [1838: 4], que concorda com o primeiro: “”Così veggiamo ben presto [Giulio] por mano alla sublime invenzione del Sanzio, la santa Cecilia…””.

No entanto, o restauro e a limpeza revelaram que os instrumentos atribuídos a Giovanni da Udine foram pintados pela mesma mão que trabalhou o restante do quadro, descartando a participação do ateliê. Mais recentemente, outras aproximações ao estilo de Giulio Romano foram feitas na comparação do estilo do drapeado na sua Circuncisão com o da Madalena na Santa Cecília e na disposição retilínea da Madonnina do Louvre com a da figura de Cecília [Joannides, 1985: 24].

Letícia Andrade
20/01/2011

Bibliografia:
1550 – G. Vasari, Vite, ed. Bellosi, Rossi, Previtali, Novara, 1986, pp. 655-656, p. 627
1568 – G. Vasari, Vite, ed. Milanesi, 1906, IV, p. 349, VI, p. 551
1824 – A.-C. Quatremère de Quincy, Histoire de la vie et des ouvrages de Raphaël. Paris, 1824
1842 – C. D´Arco, Istoria della vita e delle opere di Giulio Pippi Romano; scritta da Carlo d´Arco. Mântua: Fratelli Negretti
1860 – J.-D. Passavant, Raphaël d´Urbin et son père Giovanni Santi, 2 volumes, Paris, Jules Renouard.
1882-1883 – J. A. Crowe, G. B. Cavalcaselle, Raphael, Life and Works. Londres
1925 – F. Filippini Raffaello a Bologna””, in Cronache d´Arte II
1932 – B. Berenson, Italian Pictures of the Italian Renaissance. Oxford
1948 – O. Fischel, Raphael, 2 volumes, Londres, B. Rackham
1956 – E. Camesasca, Tutta la pittura di Raffaello, I Quadri. Milão
1964 – A. M. Brizio, “”La Santa Cecilia di Raffaello””, in Studi in onore di Giusta N. Fasola. Arte Lombarda, IX, I, Supplemento
1966 – P. De Vecchi, L´Opera completa di Raffaello. Milão, Rizzoli
1971 – L. Dussler, Raphael. A Critical Catalogue of his Pictures, Wall-paintings and Tapestries. Londres / New York, Phaidon
1985 – P. Joannides, “”The Early Easel Paintings of Giulio Romano””. Paragone, 425, julho, ano XXXVI. Florença, Sansoni
1989 – S. Ferino-Pagden, M.A. Zancan, Raffaello. Catalogo completo dei dipinti. Florença: Cantini
1995 – C. Strinati, Raffaello. Florença: Giunti

Artista

Rafael

Data

1514/ 1517

Local

Bolonha, Pinacoteca Nazionale

Medidas

238 x 150 cm

Técnica

Oleo sobre madeira transplantado sobre tela

Suporte

Pintura

Tema

Bíblia e Cristianismo

Período

36 - SÉCULO XVI

Index Iconografico

806 - Imagens e Ciclos Biográficos de santos; 806Ceci - Santa Cecília; 806Mada - Santa Maria Madalena; 654 - Paulo; 687 - S. João Evangelista; 1162 - A Música; 1162C - Os Instrumentos

Autor

Luiz Marques

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