São Jerônimo

“Registro inventarial: inv. 1882 / T. 1773

A obra entra em data ignorada na coleção real portuguesa. Em
1808 é trazida ao Brasil quando da transferência da corte
portuguesa ao Rio de Janeiro. Em 1836, comparece no primeiro
inventário da Academia Imperial de Belas Artes do Rio de
Janeiro, com a menção: “”Luca Cambiasi. S. Jeronimo meditando
na sua gruta””. A documentação sucessiva do MNBA conserva
esta atribuição.

São Jerônimo (347-420) é representado em meditação, com seus
atributos habituais: a pedra com que golpeia o peito para se
penitenciar dos sonhos lascivos; o crânio e o Crucifixo,
símbolos da meditatio mortis, o livro das Escrituras,
a partir dos quais o santo poliglota estabelece o texto da
Vulgata, e o leão, leo mansueto, alusivo à sua
experiência de anacoreta no deserto da Síria.

A lenda do leão domesticado pelo santo, após ter este
desencravado um espinho de sua pata, remontaria à Legenda
aurea
de Jacopo de Varazze. Embora resulte talvez de
uma fusão com um episódio da vida de um anacoreta palestino,
S. Gerásimo, a presença do animal simboliza, de qualquer
modo, o parentesco teológico do Santo com S. Marcos, segundo
o consagrado paralelo entre os quatro Evangelistas e os
quatro Doutores da Igreja latina.

Ignora-se a autoria da atribuição a Luca Cambiaso (1527-
1585), que remonta ao menos ao século XVIII. Há uma réplica
de dimensões semelhantes na Chiesa dei Cappuccini, em
Montirosso al Mare, La Spezia. Na Fototeca do
Kunsthistorisches Institut in Florenz, ela figura de modo
dubitativo no dossiê do pintor lígure, dúvida compartilhada
por Mary Newcome-Schleier (comunicação oral, 1990).

Há ainda uma versão independente em Voltaggio, Pinacoteca do
Convento dei Capuccini, cujo conhecimento devo à mesma
estudiosa, inclinada a agrupar as três obras (La Spezia,
Voltaggio e Rio de Janeiro) sob o nome de Valerio Corte
(1530-1580) ou Giovanni Battista Paggi (1557-1627). Por sua
parte, Erich Schleier (comunicação oral, 1990) cogita em
nomes como Lazzaro Tavarone (1556-1641) ou Lazzaro Calvi
(1512-1587).

Os Noturnos de Cambiaso circunscrevem-se tematicamente em
três momentos do ciclo cristológico. Nada impede, porém, a
existência de um quarto grupo consagrado a São Jerônimo: a
iconografia jeronimiana e em especial a que figura o Santo
em antro ombroso, isto é, em penitência ou em ascese,
situa se entre as mais prestigiosas da hagiografia do século
tridentino, marcado pelos “”Exercícios espirituais”” Roma,
1584] de S. Ignácio de Loyola.

Para se compreender como o Santo virá a desempenhar esta
função é preciso partir de um dos mais pregnantes exemplos
de comparatio no Renascimento: a oposição simétrica e
complementar entre S. Jerônimo e S. Agostinho.

Esta polaridade nasce, nesse período, da controvérsia
epistolar entre Petrarca (Ad Familiares, IV, 15 16),
leitor das “”Confissões”” no monte Ventoux, e Giovanni
d´Andrea, autor do Hieronymianus (1326c.), a mais
importante fonte para a iconografia renascentista, até o
Jeronimus, vita e transitus [Veneza, 1485].

Uma das tantas modalidades do paragone, exercício em
que se compraz a intelectualidade florentina, o debate
hagiográfico se amplia nos séculos XV e início do XVI com
Francesco Filelfo, Erasmo, Johann Maier von Eck, etc. e
exprime-se com força também em pintura, onde os afrescos de
Domenico Ghirlandaio e Sandro Botticelli no refeitório do
convento de Ognissanti, em Florença, são exemplares.

Os ataques de Lutero a Erasmo e ao próprio Jerônimo, bem
como sua reivindicação de Agostinho imergem esta tradição
nos conflitos religiosos do século XVI e estimulam o aparato
doutrinal da Igreja a investir com ênfase especial na imagem
do santo tradutor, que se vê assim revestida de uma
paradigmática ortodoxia.

Cambiaso seria um dos criadores desta nova face da
iconografia jeronimiana. Nada mais, aqui, daquela simetria
emulatória entre ambos os Santos que no século XV encarnava
a tensão entre dialética e eloquência, permitindo, por
exemplo, que a “”Visão de S. Agostinho”” de Carpaccio, em S.
Giorgio degli Schiavoni (1502-1507), fosse, até 1959, tomada
por um S. Jerônimo no Estúdio, já que ambos os Santos
poderiam servir de suporte iconográfico ao retrato do
Cardeal Bessarion.

Enfatizando a má consciência de erudito cícero-cristão, de
Jerônimo, a iconografia tridentina propensa a reduzir a
fruição da cultura pagã à sensualidade hedonista, converte o
Santo poliglota em um contra-ponto masculino de S. Madalena
penitente no deserto.

De fato, além das três telas acima mencionadas, atribuídas
por hipótese ao pintor, as representações do Santo por
Cambiaso devem ter sido numerosas, antes mesmo de sua estada
na Espanha, onde trabalhará para os Jerônimos do Escurial.

Luiz Marques
17/11/2011

Bibliografia:
1992 – L. Marques, Pintura Italiana Anterior ao Século XIX
no Museu Nacional de Belas Artes. São Paulo: Área Editorial,
pp. 57-61.”

Artista

CAMBIASO, Luca

Data

1570c.

Local

Rio de Janeiro, Museu Nacional de Belas Artes

Medidas

118 x 98 cm

Técnica

Óleo sobre tela

Suporte

Pintura

Tema

Bíblia e Cristianismo

Período

36 - SÉCULO XVI

Index Iconografico

806 - Imagens e Ciclos Biográficos de santos; 806Jero - São
Jerônimo

Autor

Luiz Marques

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