São Jorge e o dragão

São Jorge com uma armadura sobre um cavalo branco avança em
diagonal enquanto atravessa com a lança o olho do dragão.
Atrás do santo, vê-se um bosque sombrio, acima do qual uma
configuração extraordinária de nuvens parece aludir à
intervenção divina.

Situado simetricamente em diagonal, o dragão com garras
triplas sai de sua caverna rochosa (e não do lago, como
narra a lenda), atributo associado, segundo Francastel, às
encenações anuais das festas de S. Jorge. Ele abre as asas
com vistosas circunferências diversamente coloridas acima e
abaixo das asas. De sua boca escorre sangue em decorrência
do ferimento. A seu lado, uma jovem princesa vestida de
verde sob um manto vermelho, em rigoroso perfil, com o
penteado recuado e a testa em evidência à maneira
florentina, mantém-no atado a um laço.

A cena parece se passar ao crepúsculo, como mostra a lua
crescente no céu, e num descampado de pedras e jardins
rasteiros, ambos figurados em bizarras formas geométricas
que tendem a reforçar os efeitos de profundidade. No fundo,
distingue-se a cidade murada de Silena, na Líbia, nos
arredores da qual se ambienta a lenda, situada sob o
Imperador Diocleciano (284-305).

Embora recusada como apócrifa por um concílio no século V, a
fábula alimenta um culto que prospera na Palestina, na Lídia
e no Egito copta, e em seguida no Ocidente, onde S. Jorge dá
nome a igrejas de grande importância na Inglaterra, em
Veneza, Verona, Roma, etc. Sua iconografia é igualmente
abundante a partir do século XII, comparecendo, por exemplo,
no tímpano da catedral de Ferrara, datado de 1155.

A referência textual desta composição de Paolo Uccello é a
Legenda aurea de Jacopo de Varazze (1280c.):

“Jorge, tribuno nascido na Capadócia, foi certa vez a
Silena, cidade da província da Líbia. Ali perto havia um
lago, grande como um mar, no qual se escondia um pestífero e
enorme dragão que muitas vezes afugentou o povo armado que
tentara atacá-lo. Para acalmá-lo e impedir que se
aproximasse das muralhas da cidade, que não a protegiam de
seu hálito empesteado e mortífero, os habitantes davam-lhe
todos os dias duas ovelhas. Quando começou a não haver
ovelhas em quantidade suficiente, o conselho municipal
decidiu que se daria uma ovelha e um humano, sorteando-se
para tanto rapazes e moças, sem excetuar ninguém. Depois de
algum tempo também faltou gente, e o sorteio designou a
filha única do rei para ser entregue ao dragão”.

Passando casualmente pelo local em que a princesa estava
para ser sacrificada, São Jorge toma a defesa da jovem:
“montou imediatamente em seu cavalo, protegeu-se com o sinal
da cruz, e com audácia atacou o dragão que avançava em sua
direção. Brandindo a lança com vigor, recomendou-se a Deus,
atingiu o monstro com força, jogando-o ao chão, e disse à
moça: ´Coloque sem medo seu cinto no pescoço do dragão,
minha filha´. Ela assim o fez e o dragão seguiu-a como um
cãozinho muito manso”.

O feito e a sucessiva morte do dragão pela espada de Jorge
acarretou a conversão em massa da cidade: “Nesse dia, 20 mil
homens foram batizados, sem contar crianças e mulheres”.

São evidentes os paralelismos arquetípicos entre o santo
capadociano e Perseu, libertador de Andrômeda, tal como
narrado por Ovídio (e antes dele por Eurípedes). O dragão é
em ambos os casos aquático, os dois feitos se passam em
reinos próximos e exóticos, o esquema do combate é similar,
ocorrem no momento extremo do sacrifício e têm a idêntica
função de salvar uma princesa, restaurando a ordem ameaçada
pelo monstruoso.

F. Siguret (1993) e C. Bédard (1996) notam, por exemplo, que
duas edições venezianas das Metamorfoses de Ovídio,
de 1509 e de 1522, trazem em seu frontispício uma imagem do
combate entre S. Jorge e o dragão, consolidando assim uma
fusão entre mitos, facilitada pela estratégia do famoso
editor, Giorgio Rusconi, que se vale da imagem de seu santo
protetor.

A datação da obra é incerta, mas posterior às duas versões
que Uccello pintou desta mesma cena, hoje em Melbourne,
National Gallery of Victoria e em Paris, Musée Jacqmart-
André, datada por James Beck de 1465, conforme um documento
de pagamento do mercante florentino, Lorenzo di Matteo
Morelli.

Luiz Marques
04/12/2011

Bibliografia:
1952 – P. Francastel, “Messincena e coscienza: il Diavolo in
strada alla fine del Medioevo”. In, L´arte e il demoniaco.
Milão: Medusa, 2011, p. 20.
1979 – J.H. Beck, “Paolo Uccello and the Paris St. George,
1465″. Gazette des Beaux-Arts, 93, pp. 1-5.
1993 – F. Siguret, “Saint-Georges et les métamorphoses”.
Études françaises, 29, 2,
1996 – C. Bédard, “Saint Georges à l´épreuve de Persée:
affrontements et démembrements”. In, F. Siguret e A.
Laframboise (ed.) Andromède ou le héros à l´épreuve de la
beauté. Actes du colloque, musée du Louvre, 1995, pp. 281-
315.
2003 – D. Gordon, The Fifteenth Century Italian Paintings.
National Gallery Catalogues, vol. I, p. 398.

Artista

UCCELLO, Paolo

Data

1470c.

Local

Londres, National Gallery

Medidas

58,5 x 75,7 cm

Técnica

Óleo sobre tela

Suporte

Pintura

Tema

Bíblia e Cristianismo

Período

SÉCULO XV

Index Iconografico

806Jorg - São Jorge

Autor

Luiz Marques

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