Sarcófago com a Morte de Meleagro

“Registro inventarial: Ma 539

Quando as naves dos dânaos singram os mares em direção a Troia, Meleagro, heroi de Cálidon (cidade da Etólia), já não mais existe. No canto II da Ilíada, em que nomeia os comandantes e suas frotas, Homero escreve acerca das embarcações dos Etólios:

“”Em quarenta os Etólios velejaram,
De Olenos, de Pleurona e de Pilene,
Cálcis marinha e Cálidon fragosa,
Sob o Andremônio Toas, que imperava;
Eneu já sendo e a boa prole extintos,
Pois nem restava o louro Meleagro””.
(tradução de Odorico Mendes, vv. 562-567)

Ou na tradução alternativa de Haroldo de Campos (vv. 636-41)

“”Toante, filho de Andrêmone, guiava os Etólios,
habitantes de Olenos, Pilenes e Pleurona,
da Calidona pétrea, da beira-marina
Cálcide. Morto Eneu, longânime e os dois filhos;
morto Meleagro, loiro capitão, só Toante
comandava os Etólios, chefe soberano””.

Meleagro é, pois, filho de Euneu, rei primevo da Etólia que inaugurara o cultivo da vinha, e de Alteia, uma das irmãs de Leda. Seu mito ocorre igualmente na Ilíada (Canto IX), relatado por Fênix em sua vã tentativa de reconduzir Aquiles ao combate: tendo Euneu negligenciado Ártemis ao oferecer aos deuses as primícias de sua vinha, a deusa, irada, envia a seu país um terrível javali que o devasta. Meleagro o mata, não sem se valer, contudo, da ajuda de muitos herois, que ele convoca também entre os Curetas. Inconformada, Ártemis suscita a guerra entre Curetas e Etólios pela posse da pele da fera enorme.

É graças, entretanto, às Metamorfoses (VIII, 260-525) de Ovídio que se tem notícia de como ocorreu a morte de Meleagro. Entre os que acorrem em ajuda de Meleagro estão os filhos de Tíndaro, Plexipo e Toxeu (seus tios, pois irmãos de Alteia), e Atalanta, por quem Meleagro se apaixona e a quem oferece a pele do monstro, finalmente abatido por sua clava, prenda oferecida à mulher guerreira, única a tirar sangue do javali, o que suscita o despeito dos homens.

Ao tentarem arrebatar o troféu de Atalanta, Plexipo e Toxeu caem sob os golpes de Meleagro, o que lhe acarreta a maldição de sua mãe, Alteia. Ora, as Parcas haviam-lhe predito que seu filho recém-nascido morreria tão logo as chamas consumissem a lenha da fogueira de seu lar, o que a levara a apagar o fogo e a escondê-la. Alteia hesita, dilacerada, entre seu amor de mãe e de irmã, mas finalmente torna-se ímpia por piedade (impietate pia est), retira a velha lenha de seu abrigo e a relança ao fogo. A predição das Parcas se confirma e Meleagro morre.

O sarcófago em questão, proveniente da coleção Borghese, foi adquirido para o Louvre em 1807. Em ótimo estado de conservação, era conhecido desde ao menos o século XV, pois foi copiado por volta de 1480 por Giulano da Sangallo (1445 – 1516) para a tumba de Francesco Sassetti na igreja de Santa Trinita em Florença.

Ele mostra Alteia, à esquerda, no ato de depositar a lenha fatídica no fogo de seu altar. A figura da extrema esquerda pode ser interpretada, salvo engano, como uma personificação de Nêmesis, com seu pé sobre a roda da fortuna, atributo que comparece em esculturas dessa divindade, como as que se conservam no Louvre (inv. Ma 4873) e no Villa Getty de Malibu, obras ambas do século II.

À direita, vê-se o enfrentamento entre Meleagro e seus tios pela posse da pele do javali de Cálidon; ao centro, o heroi morto é deplorado pelos seus e por Atalanta sentada com um cão a seus pés e a cabeça inclinada sobre a mão.

Foi notado o pathos que se manifesta no gesto dos braços abertos de um dos pleurants do lamento fúnebre do heroi, gesto que reencontramos num relevo de Nicola Pisano no Duomo de Siena (1266-68) representando a cena do Massacre dos Inocentes, bem como em dois afrescos da Deploração do Cristo de Giotto, em Pádua e em Assis (primeiro decênio do século XIV).

Sobre tais fórmulas gestuais capazes de assumir ao longo da tradição clássica significados fixos e independentes, no âmbito de uma lenta codificação visual das emoções, Aby Warburg cunharia sua célebre noção de Pathosformel.

Luiz Marques
03/06/2011

Bibliografia
2008 – P. Zanker, B. C. Ewald, Vivere con i miti. L´iconografia dei sarcofagi romani. Turim: Bollati Boringhieri, p. 17

Artista

Arte Romana

Data

180/ 190

Local

Paris, musée du Louvre

Medidas

72 x 206 cm

Técnica

Mármore

Suporte

Escultura

Tema

Mitologia, História e Topografia Antigas

Período

ARTE GRECO-ROMANA

Index Iconografico

102 - Meleagro, heroi de Calidon; 102B - A caça do javali de Cálidon e a Morte de Meleagro

Autor

Luiz Marques

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *