Sem título da série:

A presencia reiterada da reprodução do retrato de José Martí, herói cubano da guerra de independência, é o motivo da série do fotógrafo cubano Ramón Martínez Grandal. O artista se vale desta estrategia do governo cubano mistura de propaganda política e manipulação histórica que tem na reprodutibilidade fotográfica seu melhor instrumento, recurso que compartilha com a antiga União Soviética ao suprir a carência de produtos pelas imagens caras à `revolução`.
A crise financeira que se inicia em Cuba na década de 1960, que com diversas flutuações se mantém até hoje, dará um novo uso à figura “martiana” através de uma nova concepção do retrato fotográfico de um prócer da história, que ocupará as vitrines das lojas e comércios. Onde antigamente eram expostos os produtos e os alimentos, estará o rosto de Martí também acompanhando os cubanos no dia-dia, através da lembrança por meio do recurso visual das ideias que é preciso defender. Imagem e ideias se confundem e se misturam numa lavagem cerebral coletiva, na construção de uma figura gigantesca e sem mácula que representa a necessidade de sempre por sobre os interesses coletivos, sobre os interesses pessoais, um tipo de adoração quase religiosa, reforçada pelo seu reconhecimento como `Apostolo da independência`, uma figura que incita sempre a trabalhar pelo bem do próximo, da comunidade, ou seja, da revolução, um tipo de `Grande irmão` orwelliano.
O suplemento verbal que apresenta a série, ou seja, o nome colocado pelo próprio artista, “La imagen constante”, é o detonador desta ideia de saturação. A partir da imagem fotográfica purista empregada por Grandal, sua série “La imagem constante” aproxima-nos de um conjunto de questões inerentes ao funcionamento da sociedade cubana que, derivam de uma estrutura político-governamental pondo em evidência um fenômeno que se insere dentro da cultura nacional, cuja geração não é espontânea, mas criada por uma determinada doutrina política. O artista reflete a realidade na qual se encontra inserido a partir de uma nova maneira de conceber a fotografia como meio de expressão. Ele percorre caminhos que, embora se encontrem ligados à fotografia documental de tom conservador, já que o artista captura suas imagens ao natural em espaços públicos, introduzem elementos para uma abertura na fotografia cubana de perspectiva autoral que gradualmente conquistará importantes espaços na cultura nacional.
Ramón Martínez Grandal (1950), realizou estudos em Artes plásticas e Museología. Em 1972 inicia seus trabalhos como fotojornalista, como fotógrafo da revista Revolución y Cultura em Havana, participando em inúmeras matérias. Participou da IIª Bienal de Havana, assim como, na Iª Mostra de Fotografia Latino-Americana Contemporânea e do I° Colóquio Latino-Americano de Fotografia, celebrados no México em 1978, e do III° Colóquio Latino-Americano de Fotografia, em Havana em 1984. Seu reconhecimento profissional o fez formar parte, em 1987, do juri do prêmio de fotografia outorgado pela Casa de las Américas, inicialmente Premio de Fotografia Contemporanea y Caribeña e hoje Premio Ensayo Fotográfico. Em 1993, Ramón Grandal obteve permissão do governo cubano para residir por dois anos na Venezuela por motivos de trabalho, país onde decide exilar-se ao expirar a autorização, regressando a Cuba em 2006 por causa de problemas financeiros. Em 2007, Grandal voltará a participar de exposições na Ilha, primeiro como convidado do artista Pedro Abascal, na mostra Re-cuentos exibida no Taller Experimental de la Gráfica em Havana e depois, em 13 de Junho de 2008, na mostra coletiva Encuentros na galeria da UNEAC, Villa Manuela. Ao longo de sua carreira tem participado em mostras pessoais e coletivas em mais de 60 países, entre os quais podemos citar Cuba, México, Brasil, Alemanha, Hungria, Itália, Espanha, Estados Unidos, entre outros. Sua produção fotográfica tem sido reconhecida com a menção do Prêmio de Fotografia Latino-Americana Josué Donoroso e o prêmio único do Festival Internacional de la Luz no ano de 2000, entre outros.

Mónica Villares Ferrer, Mestre em História da Arte
23/05/2010.

Artista

MARTÍNEZ Grandal, Ramón

Data

1973/1977. Cuba.

Local

Centro de la Imagen, México DF.

Medidas

24 x 32 cm

Técnica

Fotografia

Suporte

Pintura

Tema

A Figura Humana Retratos e Caricaturas

Período

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Index Iconografico

1700C1 - Retratos contemporâneos

Autor

Luiz Marques

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