Suicídio de Catão de Útica

“Sobre Catão e seu suicídio, ver os comentários a seu retrato no Museu de Rabat* e o afresco de Beccafumi em Siena, de 1519-1520*.

Trata-se, como recentemente reiterado por L. Pericolo, de uma réplica autógrafa da versão conservada no Museu de Arras. A de São Paulo é pintada sobre tela francesa, enquanto a de Arras o é sobre tela italiana, o que faz supor que Le Brun a tenha executado ainda durante sua estada romana (1642-1646). Se assim for, a menção a um Suicídio de Catão feita por Guillet de Saint-Georges em 1693, como pintado em Lyon em 1646, referir-se-ia ao quadro hoje em coleção particular de São Paulo.

Ambas as composições evidenciam o cuidado de Le Brun em sintetizar o texto de Plutarco, na busca dos elementos mais aptos a enfatizar a dimensão estoica de seu ato extremo. Le Brun representa Catão com longos cabelos e barba, seguindo a passagem da Vida de Catão de Plutarco, 53, em que o biógrafo afirma que desde a eclosão da guerra civil, “”Catão não cortou mais os cabelos nem fez a barba, não colocou mais coroa e manteve até o fim, que vencessem ou perdessem os seus, o mesmo aspecto aflito, aviltado e oprimido pelas desventuras da pátria””.

Além disso, Le Brun escolhe da longa descrição plutarquiana do suicídio o momento preciso em que Catão desmaia, após ter transpassado a espada em seu ventre e está prestes a ser socorrido por seu médico. Evita, assim, o desfecho mais cruento do episódio, em que Catão reabre seu ferimento com as mãos. A evidência do belo livro aberto, o Fedon, remete aos parágrafos 68-70, dos preparativos do ato suicida, em paralelismo com a morte de Sócrates: “”Entrou em seu aposento, deitou-se e tomou em mãos o diálogo de Platão sobre a alma; depois de o percorrer quase inteiro, levantou os olhos, mas não viu a espada, mantida pendurada sobre a cabeça (seu filho a havia retirado quando Catão estava à mesa) (…) Então retornou ao livro para dar a impressão de não se importar muito. Depois ordenou que a trouxessem. Esperou e não a viu chegar. Quando acabou o livro, chamou os servos um a um. (…). Mandaram-lhe a adaga por um rapazinho. Ele a pegou, desembainhou-a e a controlou. Tendo se assegurado de que sua ponta estava afiada, exclamou: – Agora sim, sou mestre de mim mesmo!””.

Luiz Marques
12/02/2010

Bibliografia:
J. Leegenhoek,
L. Pericolo (ed.), Guillet de Saint-Georges, Mémoires inédits sur la vie et les ouvrages des membres de l´´Académie royale de peinture et de sculpture, 2 volumes, Paris, 1854, vol. I, p. 7.”

Artista

LE BRUN, Charles

Data

1646c.

Local

São Paulo, Coleção particular

Medidas

108 x 147 cm

Técnica

Óleo sobre tela

Suporte

Pintura

Tema

Mitologia, História e Topografia Antigas

Período

SÉCULO XVII

Index Iconografico

354B - Suicídio de Catão de Útica

Autor

Luiz Marques

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