Suicídio de Catão de Útica

Sobre as fontes textuais antigas relativas a Marcos Pórcio Catão (95-46 a.C.), morto suicida em Útica, ver os comentários a seu retrato no Museu de Rabat* e às diversas representações de seu suicídio, desde a de Beccafumi* em Siena em 1519-1520 até as de Guercino*, Langetti* e as duas versões da cena* pintadas por Charles Le Brun em 1646, entre outroas.

Antonio Carneo (Protogruaro, 1637-1692), pintor friuliano, pertence de pleno a este momento particular do segundo Seiscentos veneziano dominado pelas figuras de Langetti (1635-1676) e, secundariamente, Johann Carl Loth, il Carlotto (em Veneza desde 1663), que introduzem na laguna ao longo do terceiro quarto do século o tenebrismo e o patetismo de Ribera (1591-1652).

Não se conhece o comitente do quadro, mas com toda a probabilidade seu destino era Veneza, em cujos círculos cultivados cultuava-se então o tema neo-estoico do heroi que, irredento à força, reitera sua liberdade e seu domínio de si, ainda que a custo da própria vida, como Catão de Útica, Sêneca e Sócrates. A julgar pelo maior número de encomendas deste tipo, esta voga, embora não inteiramente ausente em outros centros, parece interessar sobretudo, na Itália, Veneza, Gênova, Roma e Nápoles.

De resto, como assinala Furlan, este quadro tinha outro por pendant, representando Sócrates prestes a beber do cálice de sicuta (Udine, Coleção p[articular). Emparelhamentos entre Catão, Sêneca e Sócrates, como visto também no caso do Catão e do Sêneca de Guercino* (1641 e 1643) para um advogado romano, não eram raros neste contexto.

Iluminado intensamente apenas em parte do rosto, das costas e no ombro, Catão enterra a espada no peito, enquanto sua mão esquerda abre-se em diálogo gestual com a de seu pagem. Nenhum interesse há, aqui, na tradução visual da documentação histórica. A espada que se crava em seu peito, imersa na penumbra, é de uma perspectiva relativamente inábil. O ato, em todo o caso, despoja-se de toda ressonância histórico-filosófica para se concentrar exclusivamente no pathos do gesto e no espasmo que a dor causa no corpo.

Luiz Marques
13/02/2010

Bibliografia:

1995 – C. Furlan, Antonio Carneo nella pittura veneziana del Seicento. Catálogo da exposição. Portogruaro. Palazzo Vescovile, p. 122

Artista

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Data

1670-1680

Local

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Medidas

99 x 80 cm

Técnica

Óleo sobre tela

Suporte

Pintura

Tema

Mitologia, História e Topografia Antigas

Período

SÉCULO XVII

Index Iconografico

354B - O suicídio de Catão

Autor

Luiz Marques

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