Vênus adormecida e Cupido

Vênus deita-se nua, adormecida, sobre um leito recoberto por
um lençol de um azul muito profundo (pintado com dois
estratos de lápis-lazúli), em forte contraste com o vermelho
dos veludos da almofada e das cortinas. Ela segura na mão
esquerda um véu transparente que lhe cobre a coxa direita e
o braço esquerdo. Seu filho, Cupido, abana-a com um leque de
plumas de pavão, a ave atributo da deusa.

O modelo antigo dessa Vênus adormecida (até onde se sabe, a
Antiguidade jamais representou Vênus deitada) seria a famosa
escultura do Cortile delle Statue do Vaticano,
“Ariadne adormecida” (após ser abandonada por Teseu na ilha
de Naxos), cópia romana do século II d.C. a partir de um
original pergameno de 200 a.C. circa.

A estátua, adquirida em 1512 por Júlio II para seu
Cortile e longamente confundida com uma Cleópatra
suicida, foi muitíssimo admirada e copiada pelos artistas do
século XVI. Ela era com certeza bem conhecida de Artemisia
Gentileschi (1593-1653), a quem esta pintura foi atribuída
em 1985 por Józef Grabski.

Uma mediação possível entre o modelo antigo e esta obra
seria a “Vênus adormecida” de Annibale Carraci, do Musée
Condé de Chantilly, por certo derivada da mesma estátua
vaticana. Contudo, conforme notado por Garrard (1989), o
modelo imediato, tanto na pose quanto na iluminação, desta
Vênus de Artemisia é sem dúvida o “Cupido adormecido” de
Caravaggio, de 1608, hoje na Galleria Palatina de Palazzo
Pitti em Florença.

Ao fundo, pintado ao que parece por outra mão, descortina-se
uma paisagem noturna, iluminada pelo luar, onde se discerne
um templo circular, alusivo talvez ao santuário de Afrodite
em Cnido, que, segundo Plínio, era circular justamente para
que se pudesse admirar de todos os ângulos a célebre estátua
de Praxíteles que adornava aquele templo.

Dado o amplo emprego de um material tão custoso como o
lápis-lazúli, Garrard e Christiansen cogitam na
possibilidade de que esta Vênus seja a obra que Artemisia
enviou de Nápoles ao Cardeal Antonio Barberini, conforme uma
notícia conservada em uma carta do cardeal a Cassiano del
Pozzo de 1635. Seria ela a mesma tela inventariada entre
1624 e 1636 sob o título: “una donna con amore”.

Luiz Marques
18/04/2012

Bibliografia:
1985 – J. Grabski, “On Seicento Painting in Naples. Some
Observations on Bernardo Cavallini, Artemisia Gentileschi
and Others”. Artibus et historiae, 6, 11, pp. 56-63.
1986 – P. P. Bober, R.O. Rubinstein, Renaissance Artists and
Antique Sculpture. A Handbook of Sources, Londres: Harvey
Miller, pp. 113-114.
1999 – M. Garrard, Artemisia Gentileschi. The Image of the
Female Hero in Italian Baroque Art. Princeton, 1999, pp.
108-109 e 274-276.
2001 – K. Christiansen, J.W. Mann, Orazio e Artemisia
Gentileschi. Catálogo da exposição, Roma, Palazzo Venezia.
Genebra-Milão: Skira, pp. 371-373.

Artista

GENTILESCHI, Artemisia

Data

1625c. / 1635

Local

Princeton (New Jersey), The Barbara Piasecka Johnson Foundation

Medidas

94 x 144 cm

Técnica

Óleo sobre tela

Suporte

Pintura

Tema

Mitologia, História e Topografia Antigas

Período

SÉCULO XVII

Index Iconografico

12Ven - Afrodite Vênus; 12Ven1 - Vênus e Cupido (Afrodite e
Eros)

Autor

Luiz Marques

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