Virgem em trono com o Menino e seis Anjos (Madonna Rucellai)

Já em finais do século XIV se havia perdido o conhecimento da autoria desta que é a obra-prima da primeira maturidade de Duccio di Buoninsegna (1255-1319), como o atesta um comentador anônimo de Dante que a atribui a Cimabue, atribuição seguida, por exemplo, por Vasari em 1568, que a ela se refere com verve anedótica:

Fece poi per la chiesa di Santa Maria Novella la tavola di Nostra Donna, che è posta in alto fra la capella de´ Rucellai e quella de´ Bardi da Vernia, la quale opera fu di maggior grandezza che figura che fusse stata fatta insin a quel tempo et alcuni Angeli che le sono intorno mostrano, ancorché egli avesse la maniera greca, che s´andò accostando in parte al lineamento e modo della moderna. Onde fu questa opera di tanta maraviglia ne´ popoli di quell´età, per non si esser veduto insino allora meglio, che da casa di Cimabue fu con molta festa e con le trombe alla chiesa portata con solennissima processione, et egli perciò molto premiato et onorato. Dicesi, et in certi ricordi di vecchi pittori si legge, che mentre Cimabue la detta tavola dipigneva in certi orti appresso Porta S. Piero, che passò il re Carlo il Vecchio d´Angiò per Firenze e che, fra le molte accoglienze fattegli dagl´uomini di questa città, e´ lo condussero a vedere la tavola di Cimabue, e che per non essere ancora stata veduta da nessuno, nel mostrarsi al re vi concorsero tutti gl´uomini e tutte le donne di Firenze con grandissima festa e con la maggior calca del mondo.

Um documento de 1285, valorizado em 1899 por Wickhoff, atesta a encomenda da obra a Duccio, hoje unanimemente aceita. Na realidade, trata-se da obra que por assim dizer define por excelência o requinte extremo de Duccio, antes mesmo da sua máxima obra-prima, a grande Maestà* de 1308-1311 na Opera del Duomo de Siena.

As relações entre esta Maestà e a de Cimabue no Louvre foram devidamente detectadas pelos estudiosos e recentemente ainda por L. Bellosi, mas é justamente o estreito diálogo com Cimabue que põe melhor em relevo a singularidade poética de Duccio, capaz de fundir em um estilo absolutamente pessoal não apenas os estímulos recebidos do mestre florentino, mas também o substrato bizantino e gótico, em especial da iluminura francesa.

À força de se sublinhar, justamente, a interdependência entre Cimabue e Duccio, e sobretudo a ascendência do primeiro sobre o segundo, corre-se o risco de perder de vista o núcleo de verdade contido na simples constatação de que Duccio cria, malgrado tudo, um mundo poético – cromático, linear, ornamental, precioso, deleitoso e puramente melódico – em tudo e por tudo diverso das rime petrose e da terribilidade áspera, nodosa e irascível de Cimabue.

Na realidade, a Madonna Rucellai e a de Cimabue no Louvre oferecem um desses raríssimos contrapostos exemplares na história da arte, no qual duas obras concretas são capazes de condensar uma antinomia temperamental de alcance absoluto e universal. À impetuosidade, à melancolia e à corposidade monumental e soturna de Cimabue, saturniano primordial, opõem-se a solaridade, a placidez quase risonha, o détachement, a flutuação coreográfica, o senso da cor esmaltada e a desmaterialização do corpo destas figuras de Duccio. O da Virgem reduz-se a mínimas indicações de relevo para que melhor o defina o fio de ouro que o percorre como uma longa e vagabunda melodia.

Uma oposição dessa pureza e envergadura mental ocorrerá somente em inícios do século XV entre Masaccio e Fra Angelico, já que este último é o artista que, ao mesmo tempo, melhor entende Masaccio e o que melhor sabe criar um mundo que se lhe contrapõe.

Luiz Marques
17/07/2011

Bibliografia:
1939/1947 – R. Longhi, Giudizio sul Duecento. Opere Complete. Volume VII, Florença, 1974, pp. 1-53.
1975 – E. Sindona, L´Opera Completa di Cimabue e il momento figurativo pregiottesco. Milão, Rizzoli, p. 114
1987 – L. Marques, La Peinture du Duecento en Italie Centrale. Paris, Picard.
1998 – L. Bellosi, Cimabue, Milão, Federico Motta, p. 135

Artista

DUCCIO DI BUONINSEGNA

Data

1285/ 1286

Local

Florença, Galleria degli Uffizi

Medidas

450 x 290 cm

Técnica

Têmpera sobre madeira

Suporte

Pintura

Tema

Bíblia e Cristianismo

Período

OCIDENTE MEDIEVAL

Index Iconografico

711 - A Virgem com o Menino Jesus; 711A - Maestà. A Virgem no trono com o Menino Jesus e os Anjos

Autor

Luiz Marques

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