Virgem em trono com o Menino Jesus, S. João Batista e quatro anjos (Madona Manchester)

Registro inventarial: NG 809

Além das três ou quatro esculturas realizadas por Michelangelo durante sua primeira estada na Urbe (1497-1501) – o Baco*, o Apolo/Cupido*, a Pietà* e talvez o assim chamado Arrotino* -, Vasari, Condivi e o Anonimo Magliabechiano atestam o episódio do cartão de um São Francisco recebendo os estigmas, executado para o barbeiro do cardeal Raffaele Riario, o que introduz a questão da atividade de Michelangelo como pintor em Roma.

Situar-se-iam nesses anos, com efeito, uma têmpera e um óleo sobre madeira, ambos inacabados e conservados hoje na National Gallery de Londres: a “Madona Manchester”, talvez de 1497, e o “Sepultamento de Cristo” (162 x 150 cm) de 1500-1501, ambos inacabados.

Michael Hirst [1981:593] e [1994:37-46] publicou documentos da movimentação de conta de Michelangelo no banco de Balducci de Roma, hoje conservados no Archivio di Stato de Florença (Eredità di Lemmo Balducci, II). Um desses documentos é precioso pois atesta a atividade romana de Michelangelo como pintor em 1497.

Na movimentação c. 63 verso, lê-se:

Adi 27 di giugno, a Michelagnolo carlini 3 per 1º chuadro di legno per dipignerlo…

“no dia 27 de junho [de 1497], a Michelangelo 3 carlini para um quadro de madeira para pintá-lo”.

É plausível que esta movimentação relacione-se com a Virgem com o Menino Jesus S. João Batista e quatro anjos, chamada Madona Manchester, outrora na Villa Borghese e já atribuída ao artista em um inventário de 1700, cf. Della Pergola [1954:47-48].

Embora inacabada, a composição deixa pouco espaço para a paisagem ao fundo, provavelmente não prevista. Na realidade, a obra, de excepcional densidade plástica, traduz em pintura o jogo de planos de um relevo: a Virgem e o menino Jesus destacam-se nessa frisa menos por sua centralidade que por sua compacidade de bloco e sua proeminência em relação ao plano médio da frisa, procedimento mais tarde utilizado no Tondo Doni.

O trono da Virgem é uma rocha que mimetiza a base de uma escultura, como a sinalizar o que restou do desbaste do mármore em que o grupo foi “esculpido”, de modo de resto idêntico ao Baco. Em contraste com a mobilidade lateral das figuras em frisa, que potencialmente “deslizam” sobre o plano de fundo, o grupo central está fortemente soldado à rocha de base, à maneira de um grupo escultórico.

Luiz Marques
04/06/2011

Bibliografia:
1954 – – P. Della Pergola, “La Madonna di Manchester nella Galleria Borghese´, Paragone, V, pp. 47-48.
1981 – M. Hirst, “Michelangelo in Rome: an altar piece and the ´Bacchus´”. BM, CXXIII, 943, out., 581 93.
1999 – N. Penny, “La Madonna di Manchester”. In, K. Weil-Garris Brandt, C. Alcidini Luchinat, J. David Draper, N. Penny, Giovinezza di Michelangelo. Catálogo da Exposição. Florença. Florença: ArtificioSkira, pp. 115-126.

Artista

Michelangelo Buonarroti

Data

1497c. (?)

Local

Londres, National Gallery

Medidas

104,5 x 77 cm

Técnica

Têmpera sobre madeira

Suporte

Pintura

Tema

Bíblia e Cristianismo

Período

SÉCULO XV

Index Iconografico

711 - A Virgem com o Menino Jesus

Autor

Luiz Marques

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