Autorretrato

Entre 1823 e 1825, têm lugar retratos e autorretratos de
artistas representados de um modo ou de outro em imediata
relação com a própria morte.

Ary Scheffer apresenta no Salon de 1824 a “Morte de
Géricault à Paris, le 26.1.1824″. A obra perturba de tal
modo o pintor e crítico Jean-Etienne Delécluze, que ele
confia a seu diário: “Son spectre me poursuit. Ce tableau…
n´est plus de la peinture pour moi”.

De fato, embora a pintura conserve muito do consagrado
esquema compositivo da morte heróica do artista, o gênero é
outro. Scheffer não representa mais a morte de um artista
antigo, o que o distancia decisivamente da pintura de
história ou da voga troubadour. Além disso, despoja-
se nesta pintura de seu próprio estilo e mimetiza o de
Géricault, como a sugerir um autorretrato.

Surpreende-se aqui, salvo engano, uma nova abordagem da
morte do artista, que poderíamos chamar o retrato do artista
contemporâneo como morto, ou moribundo. Ela precisa-se no
“Retrato de Géricault moribundo” de Alexandre Corréard, que
sugere um autorretrato em vias de se transformar em uma
caveira.

Essa vontade de representação do artista como morto ou como
moribundo, em suma como um Homo doloris, antecipa-se
em parte no “Goya cuidado pelo Doutor Arrieta”, hoje no
Institute of Arts de Minneapolis. Em parte apenas, é
verdade, porque Goya procura aqui tanto se representar em
agonia quanto homenagear o médico e amigo que lhe salvara a
vida, como esclarece a inscrição na base do quadro.

Seja como for, a morte associa-se desde então, e com
crescente frequência, à imagem do artista. Em 1823, ela
paira, ao lado de uma máscara mortuária ou trágica, sobre a
paleta de um artista, outrora considerado o próprio
Géricault, e hoje, seus amigos, Dedreux-Dorcy ou Jamar.

No mesmo ano ou em 1825, Carl Blechen (1798-1840) pinta este
estranho autorretrato fora do ambiente habitual do ateliê.
Aos pés da rocha sobre a qual posa seu braço, e justamente
na direção apontada pelo seu pincel, que toma a forma de uma
flecha, parece possível entrever um rosto espectral ou uma
caveira, prenúncio inquietante da demência que viria a
fulminá-lo.

Luiz Marques
20/10/2011

Artista

BLECHEN, Carl Eduard Ferdinand

Data

1825

Local

Berlim, Nationalgalerie

Medidas

desconhecidas

Técnica

Óleo sobre tela

Suporte

Pintura

Tema

A Figura Humana Retratos e Caricaturas

Período

50 - SÉCULO XIX

Index Iconografico

1700C3 - Artistas e Autoretratos; 1111 - O Mundo e o Mito do
Artista

Autor

Luiz Marques

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *