Centauromaquia, Batalha entre Centauros e Lapitas

Na Vida de Michelangelo (1568), Giorgio Vasari situa este
relevo no período em que Michelangelo habitava o Palazzo di
Via Larga de Lorenzo il Magnifico:

“Nesse tempo, aconselhado por Poliziano, homem singular nas
letras, Michelangelo numa peça de mármore dada por aquele
Senhor esculpiu a batalha de Hércules contra os Centauros,
tão bela, que por vezes a quem hoje a considera não parece
da mão de um jovem, mas de mestre consumado nos estudos e
experiente naquela arte. Está hoje em sua casa, mantida como
raridade, em sua memória, por Leonardo, seu sobrinho”.

O aconselhamento de Angelo Poliziano (1454-1494) é atestado
por Ascanio Condivi (1553):

“Este [Poliziano], reconhecendo em Michelangelo um espírito
elevadíssimo, muito o apreciava, e continuamente, embora não
fosse necessário, incitava-o ao estudo, instruindo-o sempre
e encomendando-lhe algo. Assim, propôs-lhe um dia o Rapto de
Djanira e a Luta dos Centauros, instruindo-o ponto por ponto
sobre a fábula. Michelangelo iniciou-a em mármore, em alto
relevo, e foi tão bem sucedido que, quando mais tarde a
reviu, lembro-me de se lamentar do erro cometido contra a
natureza por não se ter dedicado mais prontamente à
escultura”.

Considera-se em geral que Michelangelo sintetiza nesse
relevo a descrição do combate entre os Centauros e os
Lapitas, cuja fonte são as “Metamorfoses” (XII, 210-404) de
Ovídio.

É possível que Poliziano soubesse da existência de um
precedente figurativo do mito em questão, pintado no jardim
secreto de Francesco Gonzaga, em Mântua, no momento da
criação do “Orfeo”, por volta de 1480.

Franz Wickhoff foi o primeiro a notar as discrepâncias
entre, de um lado, a descrição do tema por Condivi e Vasari
e, de outro, o que se vê no relevo. O mito de Djanira
(Ovídio, Met., IX, 98-134) não pode ser, como creem Condivi
e Vasari, a fonte da Centauromaquia, já que narra como o
centauro Nessos tenta violentar Djanira, esposa de Hércules,
durante a travessia do rio Êvenos, e como o herói o mata com
uma flechada, tema esse representado por Pollaiuolo em um
quadro do Museu de New Haven.

Ao contrário, o relevo da Casa Buonarroti corresponde ao
mito de Hipodâmia: os centauros, filhos de Íxion e,
portanto, meio-irmãos de Piritous, rei dos Lapitas, são
convidados às suas núpcias com Hipodâmia.

Inebriados, o mais selvagem deles, Eurítion (saeuorum
saeuissime Centaurorum
), tenta raptar a noiva e é morto
por Teseu, amigo de Piritous. O incidente desencadeia a
generalizada batalha entre os Lapitas (sob o comando de
Teseu) e os Centauros, vencida pelos humanos.

Há tentativas de revalorizar a proposta de Condivi e Vasari,
que foi, de resto, seguida por R. Borghini [1584], segundo a
qual se trataria de fato de uma luta entre Hércules e o
Centauro. Parronchi argumenta em favor dessa hipótese,
alegando que o relevo e a estátua de Hércules que
Michelangelo fará a seguir fazem parte de um mesmo programa
iconográfico, que o próprio Poliziano havia sido chamado por
Ficino de “Politianus Hercules” e que a fonte de que se
servia o poeta ao ditar o programa iconográfico a
Michelangelo seria o De laboribus Herculis, de
Coluccio Salutati (1378-1383), o qual frisa, apoiado na
autoridade de Boccaccio, Virgílio e Boécio, o papel
essencial de Hércules na derrota dos centauros.

A tese de Parronchi é em parte retomada por Lisner, segundo
a qual se trataria de fato da Luta de Hércules com os
Centauros, conclusão a que chega a autora após um reexame de
fontes literárias mais próximas do ambiente cultural
laurenciano: a segunda versão do De Viris illustribus
de Petrarca, o De Genealogia deorum, de Boccaccio,
além do tratado de Coluccio Salutati.

O dilema Hércules / Teseu permanece também do ponto de vista
da comitência mediciana, pois se Hércules é uma figura
emblemática de Florença e da corte laurenciana, Teseu
assumiu funções equivalentes na simbólica das virtudes da
família Medici.

Seznec aproxima a Centauromaquia da “Atena e o Centauro” de
Botticelli, que Lorenzo di Pierfrancesco de´ Medici
encomendara após a derrota dos Pazzi, em 1478, já que ambas
as obras mostrariam uma alegoria da vitória das forças
humanas da razão e da temperança sobre a fúria das paixões.
O “Cinq Livres des Hiéroglyphiques” [1614] de Pierre
Dinet corrobora esta identificação:

“les centaures représentent les voluptés et délices qui
surmontent la raison”.

Luiz Marques
07/01/2011

Bibliografia:
1882 – F. Wickhoff, “Die Antike im Bildungsgange
Michelangelos”. Mitteilungen des Inst. für Österreichische
Geschichteforschung, III, pp. 408-435.
1940 – J. Seznec, La survivance des dieux antiques. Londres,
1953, p. 112.
1969 – A. Parronchi, Opere giovanili di Michelangelo. 5
volumes, Florença: Olschki, Vol. II: Il Paragone con
l´antico, 1975, pp. 37-60.
1980 – M. Lisner, “Form und Sinngehalt von Michelangelo´s
Kentaurenschlacht, mit Notizen zu Bertoldo di Giovanni”.
MkhIF, XXIV, 3, pp. 299-344.

Artista

Michelangelo Buonarroti

Data

1492c.

Local

Florença, Casa Buonarroti

Medidas

84,5 x 90,5 cm

Técnica

Mármore

Suporte

Escultura

Tema

Mitologia, História e Topografia Antigas

Período

SÉCULO XV

Index Iconografico

70cent - Hércules, Teseu, a Centauromaquia e a Gigantomaquia;
136 - Centauros, Tritões; 136B - A Batalha entre Centauros e
Lapitas

Autor

Luiz Marques

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