Euclides exibindo os Elementos

“Registro inventarial: inv. 2001.26

A meia-figura em três quartos que fita intensamente o
espectador é apresentada por Jusepe de Ribera (1591-1652) em
um plano relativamente aproximado e é perceptível apenas na
medida em que o consente a tenebrosa iluminação da cena –
esta radical batalha entre luz e trevas, característica da
pessoalíssima interpretação que o pintor espanhol fixado em
Nápoles desde 1616c. propõe de Caravaggio.

Vestido, não à antiga, mas em andrajos modernos, como é
usual na iconografia neo-estoica do “”filósofo-mendigo”” do
século XVII – desprendido da glória mundana -, o personagem
posta-se atrás de uma mesa em que pousam dois fólios grandes
e muito manuseados, um dos quais semi-aberto. Um terceiro
fólio é exibido aberto ao espectador em uma página em que se
podem ver dois diagramas geométricos e o suposto texto de um
teorema, simulado por uma escrita pseudo-grega. Tal atributo
consente a identificação proposta pelo Museu como um retrato
imaginário de Euclides (ativo em Alexandria durante o
reinado do rei Ptolomeu I, 323-283 a.C.), exibindo sua obra
“”Os Elementos””.

Charles G. Salas identificou os diagramas estampados nas
páginas do livro. O maior deles ilustra o livro 13,
proposição 10 dos “”Elementos””: “”Se um pentágono equilátero
está inscrito em um círculo, então o quadrado do lado do
pentágono é igual à soma dos quadrados dos lados do hexágono
e do decágono inscritos no mesmo círculo””.

O autor nota que este teorema euclidiano comparece já no
“”Duplo Retrato””*, por Jacopo de´ Barbari, datado de 1495 e
conservado em Nápoles, Capodimonte. A obra figura Luca
Pacioli (1445-1517), fradre franciscano e colaborador de
Leonardo da Vinci em Milão, responsável pela primeira edição
impressa dos “”Elementos”” (1482) e autor de um tratado
intitulado Divina proportione (1509), em que proclama
o caráter divino da Razão áurea.

“”Da mesma maneira””, prossegue Salas, “”geometria e religião
estão associadas na pintura de Ribera. Muito mais óbvio,
talvez, é o tradicional simbolismo das figuras geométricas:
o círculo simboliza a eternidade e a perenidade de Deus, o
pentágono representa as cinco chagas de Cristo, e o
triângulo sugere a Santíssima Trindade””.

“”Mas o exemplo de Pacioli suscita””, sempre segundo Salas,
“”possibilidades mais interessantes, pois o diagrama de
Ribera está intimamente relacionado com a divina proporção
de Pacioli, sendo a Razão áurea crucial para a construção do
pentágono e da Proposição 10″”.

O diagrama abaixo desse, na mesma página Remete à
Proposição 9, relativa também à Razão áurea, enquanto o da
página oposta pertence à Proposição 13. A contiguidade
dessas três proposições não obedece à ordem da tradução
latina dos “”Elementos”” por Federico Commandino (1572) – a
mais importante edição daqueles anos -, mas é provavelmente
uma decisão do artista, decerto interagindo com um erudito
ou com o eventual comitente da obra.

É possível, segundo a conjectura de Salas, que a obra tenha
pertencido a Luis de la Certa, nono duque de Medinaceli e
detentor dos títulos de Alcalá. Neste caso, a pintura pode
ter integrado a série de quatro filósofos pertencentes à
residência dos Alcalá em Sevilha.

É difícil fazer-se uma ideia segura do grau de autonomia dos
artistas na escolha dos modelos antigos que deviam
incorporar estas séries de filósofos, a partir da erudição
antiquária da época. Como faz notar Oreste Ferrari em seu
notável estudo sobre o tema, há uma relativa homogeneidade
dos retratos imaginários selecionados para estas séries, as
quais se concentram em alguns âmbitos culturais. Tais
seleções atêm-se a mais ou menos 15 a 20 filósofos, muitos
dos quais apresentados em duplas ou em tetralogias: Euclides
e Arquimedes; Heráclito e Demócrito; Sócrates, Diógenes,
Platão e Aristóteles, entre os gregos. Catão e Sêneca entre
os romanos. E mais raramente, Anaxágoras, Carneades, Crates,
Arquita e Xenócrates.

Fitz Darby e Salas fazem notar que a Descripcion del real
monasterio de San Lorenzo del Escorial
(1764), do Padre
Andrés Ximénez, inclui um quadro de Ribera representando um
“”Euclides””, o qual pertenceria a uma série de quatro
pinturas, cada qual figurando um dos quatro elementos (a
terra, o ar, o fogo e a água). De fato, as relações das
figuras representadas neste quadro com o icosaedro, um dos
cinco sólidos platônicos descritos por Euclides no livro
XIII, associam-no ao elemento água.

Luiz Marques
08/11/2011

Bibliografia:
1962 – D. Fitz Darby, “”Ribera and the Wise Men””. Art
Bulletin, 44, pp. 279-307.
1986 – O. Ferrari, “”L´iconografia dei filosofi antichi nella
pittura del secolo XVII in Italia””. Storia dell´arte, 57,
maio-agosto, pp. 103-162.
2009 – C. G. Salas, “”Elements of a Ribera””. Getty Research
Journal, novembro, 1, pp. 17-26.”

Artista

RIBERA, Jusepe de

Data

1630/ 1635

Local

Los Angeles, J. Paul Getty Museum

Medidas

125 x 92 cm

Técnica

Óleo sobre tela

Suporte

Pintura

Tema

Alegorias e Temas Artísticos Morais e Psicológicos

Período

SÉCULO XVII

Index Iconografico

1114 - História, Filosofia, Retórica (1114 - 1158); 1122 -
1145 - Matemáticos antigos; 1145Euc - Euclides; 1145Euc1 - A
Razão áurea; 1700C - Retratos Pintura; 1700C4 - Personagens
não-contemporâneas; 10Elem - Os Quatro Elementos

Autor

Luiz Marques

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