Mársias tentando revestir sua pele

Esta gravura da edição de 1683, em latim, da obra de Joachim von Sandrart, Teutsche Akademie (Nüremberg, 2 volumes, 1675-1679) é ao mesmo tempo uma ilustração taxonômica do esqueleto humano em ação e uma referência satírica ao mito de Mársias, esfolado por Apolo.

Ela retoma um detalhe do Cartão da Batalha de Cascina de Michelangelo, posto em evidência pela descrição proposta por Giorgio Vasari na Vida de Michelangelo. Característica desta descrição, atenta à passagem incessante de um aspecto a outro da Batalha, é o zoom cinematográfico, o foco mais detido, em primeiro plano, justamente no detalhe do:

“velho sentado que, para se fazer sombra, cobrira-se com uma guirlanda de hera e não conseguia vestir as calças por ter as pernas úmidas e, ouvindo o tumulto dos soldados e os gritos e o rufo dos tambores, apressava se a enfiá-las à força; e além de se lhe verem todos os músculos e nervos, fazia ele uma contorção na boca que bem demonstrava quanto sofria e se empenhava até a ponta dos pés”.

A presença de um velho na guerra contra Pisa justificava-se ideologicamente, pois demonstrava que as forças florentinas eram compostas por milícias citadinas, e não por mercenários, ponto central da estratégia advogada por Maquiavel. De outro, ela assume uma função precisa no contexto da narrativa épica: o detalhe cômico, no qual a anatomia é excessivamente escandida e o esforço heróico é convertido em ridículo.

Esse detalhe será destacado por Sandrart da narrativa vasariana e transformado em locus autônomo na gravura de Sandrart, metamorfoseada ao mesmo tempo em um Marsias tentando “revestir” sua pele e em exemplo didático de representação taxonômica do esqueleto. O caráter satírico desta reelaboração de Marsias demonstra como a recepção sucessiva do grupo de Banhistas, conhecido através da cópia atribuída a Aristotile da Sangallo, foi condicionada pela narrativa vasariana.

Mas a continuidade do registro cômico da figura michelangiana permite também se indagar se esta “floresta de nus”, submetida à pressão de uma situação insólita que impõe ao nu heróico as posições mais bizarras, não traduziria uma nova “atitude” do próprio Michelangelo em relação aos modelos antigos, atitude que deixaria entrever uma possibilidade de “seriocômico”, qualificável, no limite, de paródica.

A paródia do Antigo entra de pleno na historia da arte com o scherzo de Tiziano em relação ao Laocoonte*, travestido em um grupo de símios e conhecido apenas através da gravura de Boldrini, de datação problemática. O caráter paródico da mitologia antiga esboçar-se-ia, segundo Wind [1948], já no Festim dos Deuses, de Washington, de Giovanni Bellini (1515), obra que, não por acaso, Burckhardt em 1860 comparava ao poema “macarrônico” Baldo de Teofilo Folengo (1491-1544). Mas parece plausível que um primeiro passo em relação ao gênero paródico, no domínio das artes visuais, insinue-se já no cartão da Batalha de Cascina.

Luiz Marques
03/02/2011

Bibliografia
1948 – E. Wind, Bellini´s Feast of the Gods: A Study in Venetian Humanism. Cambridge (Mass.): Harvard University Press.
1991 – S. Bordini, Materia e immagine. Fonti sulle tecniche della pittura. Roma, De Lucca, p. 98

Artista

SANDRART, Joachim von

Data

1683

Local

desconhecido

Medidas

desconhecidas

Técnica

Água-forte

Suporte

Pintura

Tema

Mitologia, História e Topografia Antigas

Período

SÉCULO XVII

Index Iconografico

12Apo8 - Apolo, Mársias, Olimpo e o escravo cita; 1155 - Estudos, lições e a prática da anatomia; 866.1364 - Batalha de Cascina

Autor

Luiz Marques

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