Sarcófago com Hipólito e Fedra

O trágico mito da esposa de Teseu, Fedra, que, na ausência do marido, apaixona-se pelo filho dele, Hipólito, era conhecido na Antiguidade por uma tragédia de Eurípedes e, em Roma, sobretudo pela tragédia de Sêneca, Phaedra. No mundo moderno e contemporâneo, o tema inspirou ainda duas célebres tragédias, a de Racine (1677) e a de D´Annunzio (1909).

O tema foi repetidamente representado em relevos de sarcófagos, como por exemplo nos que se conservam na igreja de S. Nicola em Agrigento, no Palazzo Altemps de Roma e no Louvre, este último já de finais do século III. Os relevos de Pisa e do Louvre mostram Fedra sentada à esquerda, enquanto Hipólito, advertido pela ama do amor de sua madrasta, apresta-se a deixá-la.

Numa inscrição colocada sob o sarcófago, lê-se:

Quamvis peccatrix sum domna vocata Beatrix / In tumulo missa iaceo quae comitissa. A.D. MLXXVI

“Embora pecadora, sou uma nobre mulher chamada Beatrice / Neste túmulo estou, eu que era condessa. A.D. MLXXVI”.

Trata-se do sarcófago empregado em 1076 como tumba por Beatrice di Tuscia, mãe da Condessa Matilde de Canossa (1046 – 1115c.), cuja nobreza, entre as mais elevadas da feudalidade, entrelaçava-se com a da Lotaríngia (pela mãe e primeiro casamento), e com a Casa da Francônia, entre outras, e cujos domínios estendiam-se desde o território de Brescia até o sul da Toscana.

Embora Giorgio Vasari, na Vida de Nicola Pisano, equivoque-se na identificação da cena figurada nesse relevo, ele acerta quando detecta sua importância para o grande escultor da Apúlia:

“Nicola, considerando a bondade daquela obra, que lhe agradava fortemente, empenhou tanto estudo e diligência em imitar aquela maneira, e algumas outras boas esculturas daqueles sarcófagos antigos, que foi logo considerado como o melhor escultor do seu tempo”.

Não sabemos se Vasari conhecia algum taccuino ou caderno de desenhos de estudos de esculturas antigas de Nicola Pisano, mas é altamente provável que este existisse, e que a escultura antiga fosse já então estudada e reempregada “com plena consciência, por precisas razões iconográficas ou propagandísticas”, como nota um estudioso desses cadernos de estudos, Arnold Nelsselrath.

Em todo o caso, não precisamos conhecer esse perdido taccuino e nem mesmo precisaríamos conhecer o sarcófago de Matilde, com seus relevos figurando o mito de Fedra, para reconhecer no púlpito do Batistério de Pisa, assinado e datado 1260, mais precisamente na clara articulação analítica entre arquitetura e escultura e no complexo de estátuas e relevos que o compõem, a concepção grandiosa da arquitetura e da escultura monumental romana.

Luiz Marques
18/05/2011

Bibliografia
2008 – P. Zanker, B. C. Ewald, Vivere con i miti. L´iconografia dei sarcofagi romani. Turim: Bollati Boringhieri, p. 10

Artista

Arte Romana

Data

180/ 200

Local

Pisa, Museo di Palazzo Reale

Medidas

desconhecidas

Técnica

Mármore

Suporte

Escultura

Tema

Mitologia, História e Topografia Antigas

Período

ARTE GRECO-ROMANA

Index Iconografico

71F - Teseu; 71F2 - Teseu, Fedra e Hipólito; 432 - Sarcófagos e outros relevos funerários

Autor

Luiz Marques

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *