Pietà

Em sua Vida de Michelangelo (1550 e 1568), Giorgio Vasari propõe uma longa descrição desta primeira Pietà do artista, que deve ser lida por extenso:

“Com a estada em Roma, tanto conquistou no estudo da arte, que era inacreditável quão altos iam seus pensamentos, e a maneira difícil que com facílima facilidade dominava, para o espanto não só dos que não estavam habituados a ver tais coisas, como também dos afeitos às belas, porque as obras que se viam nada pareciam comparadas às suas, o que suscitou no cardeal francês de Saint-Denis, chamado cardeal Rovano, francês, o desejo de deixar mediante artista tão insigne digna memória de si em cidade tão famosa.

E encomendou-lhe uma Pietà de mármore, que, terminada, foi posta em São Pedro na capela da Vergine Maria della Febbre, no templo de Marte, obra que nenhum escultor ou artista insigne julgue poder jamais igualar em desenho e graça, ou com sumo esforço ser capaz de tal finura e acabamento e de perfurar o mármore com tanta maestria quanto Michelangelo o fez, porque nela se entrevêem todo o valor e o poder da arte.

Em meio ao que de belo aí se vê, além de seu panos divinos, está o Cristo morto, e não se pense ver outro de tanta beleza de membros e artifício de corpo, um nu tão bem dotado de músculos, veias, nervos sobre a ossatura, nem um morto mais semelhante ao morto.

É dulcíssimo o semblante e tal a concordância na articulação e na conjunção dos braços, do corpo e das pernas e tão trabalhados os pulsos e as veias, que o próprio assombro se maravilha que mão de artista tenha podido tão divina e apropriadamente fazer em tão pouco tempo algo tão admirável.

Porque é decerto milagre que uma pedra, de início sem forma alguma, seja elevada àquela perfeição com que só a custo a natureza plasma-se na carne. Puderam tanto o amor de Michelangelo e o labor nesta obra, que nela (abstendo-se fazê-lo em outras) deixou o seu nome escrito de través em uma cinta de que o peito de Nossa Senhora se cinge.

Isto porque, ao entrar um dia na capela em que está posta, Michelangelo deparou com grande número de forasteiros lombardos que muito a elogiavam. Mas à pergunta de um deles sobre quem a havia feito, respondeu o outro: “O nosso Gobbo de Milão”. Michelangelo ficou quieto, mas lhe pareceu estranho que seus trabalhos fossem atribuídos a outros. Uma noite trancou-se na capela com uma luzinha e, tendo trazido os cinzéis, ali entalhou seu nome.

E tanto é assim que, por ser a figura verdadeira e viva, disse um belíssimo espírito:

Bellezza et onestate,
E doglia e pièta in vivo marmo morte,
Deh, come voi pur fate,
Non piangete sì forte
Che anzi tempo risveglisi da morte,
E pur, mal grado suo,
Nostro Signore e tuo,
Sposo, figliuolo e padre,
Unica sposa sua, figliuola e madre
.

(Beleza e honestidade, / E luto e piedade em vivo mármore mortas, / Ai, como fazeis para / Não chorar tão forte / Que antes do tempo ele se desperte da morte, / Malgrado seu, Nosso Senhor, e teu / Esposo, filho e pai, / Única esposa sua, filha e mãe).

O que lhe grangeou grandíssima fama. Alguns tolos dizem que ele fez a Nossa Senhora demasiado jovem, mas não percebem, não sabem eles que as pessoas virgens, imaculadas, mantêm-se jovens e por muito tempo conservam o semblante sem marca, e que com os aflitos, como foi Cristo, sucede o contrário? E é esta a razão por que tal obra acrescentou muito mais à glória e fama à virtude dele que todas as anteriores”.

A personalidade que, na realidade, está na origem da encomenda desta obra é o cardeal de Saint Denis, nomeado por Alexandre VI Cardeal em Roma com o título de Santa Sabina, no Aventino. Seu nome é Jean Bilheres de Lagraulas (1430c.-1499), filho de Manaud de Bilheres, Seigneur de Fezensac, na Gasconha.

Já servidor do rei Luís XI, o cardeal de Saint Denis é uma das grandes figuras da Roma desses anos, pois embaixador de Carlos VIII junto a Alexandre VI, governador de Roma após a morte de Inocêncio VIII e protetor das igrejas francesas de Roma, S. Luigi dei Francesi e S. Trinità dei Monti de que foi fundador e financiador.

(continua nos textos que acompanham os Detalhes 1 e 2)

Pietà

Artista

Michelangelo Buonarroti

Artista

Michelangelo Buonarroti

Data

1498/ 1500

Local

Roma (Vaticano), Basílica de São Pedro

Medidas

174 cm

Técnica

Mármore

Suporte

Escultura

Tema

Bíblia e Cristianismo

Período

SÉCULO XV

Index Iconografico

613 - Pietà
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Autor

Luiz Marques

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