Madona com ou Menino e dois anjos (Madona dos candelabros)

“Registro inventarial: inv. n. 37.484

A obra é um tardo exemplar do tondo, imagem da Virgem e do Menino, de formato redondo e de destinação doméstica, que conheceu grande prestígio no século XV, em especial na Toscana. Ela é citada no inventário das coleções Borghese de 1693. Antes de chegar à Walters Art Gallery, pertenceu às coleções de Lucien Bonaparte e do duque de Lucca.

A atribuição a Rafael (1483-1520) começa a ser colocada em dúvida com Gruyer [1869:III,100], contestação que se mantém com os escritos de Cavalcaselle [1882-1883:II,181]. Para este autor, caberia a Rafael apenas a execução da cabeça da Virgem; o restante seria da mão de Giulio Romano (1499? -1546).

Em 1971, Dussler [p. 56] rejeita a obra como um original de Rafael, inclusive a propósito da invenção, em decorrência da simetria forçada e “”completamente contra o espírito do mestre””, enquanto o grupo central lhe parecia ser mais uma combinação de motivos rafaelescos. Joannides [1985: 33] devolve a obra a Rafael e seu ateliê.

Aqui é reapresentado o motivo rafaelesco do pé esquerdo do Menino voltado para cima com dedos curvados (presente na Madonna della Seggiola, p. ex.) e que será reinterpretado por Giulio Romano na Madona de Apsley House, cuja composição guarda relações precisas tanto com a pintura em questão quanto com a Madonna della Seggiola.

O tratamento da superfície pictórica é diverso daquele que Rafael imprime ao seu tondo: as formas são enfatizadas plasticamente por uma pincelada uniforme, indo da sombra à luz em passagens pouco suaves. O ponto alto da execução é o manto da Virgem, onde se mostram as cambiantes típicas do colorido do ateliê de Rafael.

Porém, se por um lado não se consegue sugerir as qualidades táteis dos tecidos, como na Madonna della Seggiola, também não se notam as pinceladas secas que pontilham os primeiros quadros de Giulio Romano. Uma sugestão dessa técnica pode ser considerada presente na interpretação do véu da Madona.

Marcante é o interesse pela pesquisa luminosa, evidenciado pela inserção das duas fontes artificiais. Essas fontes, porém, não emanam luz coerente com a iluminação frontal, o que sugere um foco fora do espaço pictórico.

O tratamento do rosto do anjo à direita (em perfil luminoso recortado bruscamente contra um fundo escuro) e a imersão do grupo em sombras são traços comuns a outras Madonas de cavalete de Giulio Romano (Apsley House, Madona Borghese e Madonnina do Louvre).

Em suma, o compêndio de motivos rafaelescos precisos não pode ter sido criado fora do ateliê do mestre, porém, a obviedade monótona do esquema compositivo sugere mais o aproveitamento do grupo principal de algum esboço ou criação de Rafael numa inserção compositiva de outra autoria.

Por outro lado, a simetria enfática como a que se mostra aqui jamais seduziu Giulio Romano, mais afeito aos desequilíbrios do desenho que se resolvem em compensações cromáticas e luminosas. A execução de qualidade irregular, por sua vez, exclui o pincel de Rafael e pode indicar a presença de mais de uma mão, ou a de um iniciante.

Portanto, é plausível a presença de Giulio Romano nesta obra, principalmente na execução do grupo principal e do anjo à direita, assim como na concepção do tratamento luminoso. Vale lembrar que a Madona de Apsley House retoma, com variações, a idéia da fonte artificial que não ilumina e a sugestão de outro foco de luz fora do quadro.

Letícia Andrade
20/01/2011

Bibliografia:
1860 – J.-D. Passavant, Raphaël d´Urbin et son père Giovanni Santi, 2 volumes, Paris, Jules Renouard.
1869 – F.-A. Gruyer, Les Vierges de Raphaël et l´iconographie de la Vierge, 3 volumes, Paris
1882-1883 – J. A. Crowe, G. B. Cavalcaselle, Raphael, Life and Works. Londres
1936 – G. Gronau. Documenti artistici urbinati. Florença
1941 – W. Suida. Raphael. Londres
1948 – O. Fischel, Raphael, 2 volumes, Londres, B. Rackham
1956 – E. Camesasca, Tutta la pittura di Raffaello, I Quadri. Milão
1966 – P. De Vecchi, L´Opera completa di Raffaello. Milão, Rizzoli
1971 – L. Dussler, Raphael. A Critical Catalogue of his Pictures, Wall-paintings and Tapestries. Londres / New York, Phaidon
1984 – Raffaello nelle raccolte Borghese. Catálogo de exposição. Roma, Arno e Tevere, 1984
1985 – P. Joannides, “”The Early Easel Paintings of Giulio Romano””. Paragone, 425, julho, ano XXXVI. Florença, Sansoni
1995 – P. Joannides, P. Young, “”Giulio Romano´s Madonna at Apsley House””. The Burlington Magazine, vol. CXXXVII, n. 1112, novembro”

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