A Alcoviteira

Registro inventarial: M. Theresa B. Hopkins Fund, 50.2721

Assinado e datado sobre o alaúde: TBaburen fe 1622

Três personagens recortadas em meias-figuras, segundo a
Manfrediana methodus – termo cunhado em 1675 por
Joachim Sandrart para designar o découpage cênico
inventado por Caravaggio e “codificado” por seu discípulo,
Bartolomeo Manfredi (1582-1622) – encenam o momento do
contrato amoroso: o jovem com olhar lúbrico exibe uma moeda
de ouro, preço da robusta e já não mais jovem prostituta que
o seduziu com seu decote e sua música e que ele já abraça,
descobrindo-lhe ainda mais o colo, enquanto a alcoviteira
faz valer seus direitos, indicando a palma da mão em um
gesto de cobrança.

O jogo de sombra e luz que banha o pulso da prostituta e
passa através dos dedos da mão que dedilha o alaúde, a seda
branca e azul de sua veste, bem como o manto de feltro e o
turbante da alcoviteira, constituem momentos em que a
pintura de valores atinge um ápice de poesia e maravilhosa
maestria.

Como Hendrick ter Brugghen (1588-1629), Dirk van Baburen
(1595c.-1624) assimila em Roma ao longo do segundo decênio a
lição de Caravaggio e a leva de volta em 1620 a Utrecht,
onde produzirá nos quatro anos que lhe restavam um
notável conjunto de cenas de gênero.

Imagens de taberna e prostituição eram muito apreciadas pela
pintura nórdica desde início do século XVI. Muitas destas
“cenas de gênero” são de certa forma conversões de temas
bíblicos, em um espírito claramente anedótico e erótico. Tal
é o caso, por exemplo, da “Dança de Madalena” de Lucas van
Leyden (1519) –

veja-se: http://www.mare.art.br/detalhe.asp?idobra=2025

– ou da “Parábola do Filho Pródigo”, de Jean Leclerc –

veja-se: http://www.mare.art.br/detalhe.asp?idobra=3502

– do mesmo ano desta “Alcoviteira” de Baburen. Combinam-se
nessas obras, em proporções incertas e muito variadas,
ingredientes de pintura de costumes (algumas vezes de franco
erotismo e crueza) e de fábulas morais, não-raro com
ressonâncias religiosas. Pôde-se assim ver na presente cena,
ainda que como um “álibi” para um puro e simples exercício
de erotismo, um episódio da vida dissoluta do filho pródigo.

O tema da parábola do filho pródigo interpretado em registro
de pintura de gênero foi particularmente apreciado pelos
pintores holandeses do século XVII, que se retratam por
vezes na figura do filho. É o caso, por exemplo, de Gabriel
Metsu, de Rembrandt, em seu “Autorretrato com Saskia”, na
Gemäldegalerie de Dresden ou, mesmo de Vermeer na
“Alcoviteira” de 1656, também em Dresden.

Como bem nota Lynn Federle Orr (1997), “combining beauty,
finery, delectable food – such as oysters – drink and music,
the painters evoke in theirs brothels a pleasurable, but
entirely fictional, atmosphere. In images such as this by
Baburen, the unsavory is made palatable for the consumption
of members of polite society, who purchased such paintings”

O destino de tais telas era, com efeito, as paredes das mais
decorosas residências burguesas, como o demonstra o fato que
Johannes Vermeer reproduz justamente este quadro (ou uma
réplica dele) em duas de suas obras: “Concerto” (1660-1665),
hoje no Isabella Stewart Gardner Museum de Boston, e “Uma
jovem tocando um virginal” da National Gallery de Londres
(1673-1675).

A dupla citação de Baburen por Vermeer explica-se pelo fato
de que o quadro em exame pertenceu, ao que indicam pesquisas
de arquivo, a Maria Thins, futura sogra de Vermeer, além de
aparentada, através de seu primo, Jan Geensz. Thins, a outro
grande pintor de Utrecht, Abraham Bloemaert, talvez um dos
mestres de Vermeer. O próprio Vermeer, como dito acima,
executará em 1656, um quadro de mesmo tema e espírito,
conservado na Gemäldegalerie de Dresden.

Luiz Marques
25/11/2011

Bibliografia:
1997 – L. Federle Orr (col.), Masters of Light. Dutch
Painters in Utrecht during the Golden Age. Catálogo da
exposição. Baltimore, San Francisco e Londres: Yale
University Press, pp. 244-247.

Artista

BABUREN, Dirck van

Data

1622

Local

Boston, Museum of Fine Arts

Medidas

101,5 x 107,6 cm

Técnica

Óleo sobre tela

Suporte

Pintura

Tema

Vida Social e Gênero

Período

SÉCULO XVII

Index Iconografico

1342 - A Prostituição; 1394 - Prostitutas e Prostíbulos; 1396
- A Sedução; 1162 - A Música; 606D4 - O Filho Pródigo
partida e vida dissoluta

Autor

Luiz Marques

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