Primavera. Detalhe 1: Zéfiro e Cloris

“(continuação do texto que acompanha a imagem principal)

Segundo a clássica interpretação de Wind (1958) o sentido da composição deve ser percebido da direita para a esquerda.

Começa-se assim o percurso interpretativo por este detalhe à direita que representa Zéfiro, o vento da Primavera e Cloris, a ninfa terrestre que, fecundada por Zéfiro se transforma em Flora, arauto da primavera, representada à sua esquerda. A fonte textual deste cena é sem dúvida Ovídio, Fasti V, 193-228: Flora, deusa tutelar das flores, diz:

“”Esta que chamas Flora foi outrora Cloris; uma letra de meu nome foi alterada ao passar dos gregos para os latinos. Eu era Cloris, ninfa das regiões afortunadas, onde antigamente os homens viam a vida transcorrer em meio à felicidade. (…) Era primavera e eu errava ao acaso. Zéfiro me vê, eu me afasto, ele me segue, tento em vão fugir, mas não posso lutar contra ele. Bóreas, seu irmão, autorizava-o por seu exemplo, a cometer este crime, Bóreas, que se atreveu a raptar a filha de Erecteu no próprio palácio de seu pai. No entanto, Zéfiro repara sua culpa, dando-me o nome de esposa, e nenhum queixume se eleva mais de meu leito de himeneu. Gozo perenemente da primavera, o ano para mim mantém suas riquezas, a árvore sua folhagem, a terra sua verdura. Os campos que recebi como dote contêm um jardim fértil; o sopro dos ventos o acaricia, uma fonte o rega com suas águas límpidas. Meu esposo encheu-o com as mais belas flores, e disse: ´Deusa, és a rainha delas´. Com frequência, tentei classificá-las e contá-las, mas são tantas que nenhum número poderia abarcá-lo””.

Cloris eram quae Flora vocor (Eu era Cloris, que ora sou chamada Flora). A transformação é atribuída nesta passagem dos Fasti a uma metamorfose etimológica, obviamente em tom brincalhão: o nome grego Chloris, uma ninfa dos campos felizes (“”nympha campi felicis””), teria sido transformado em Floris por substituição de uma letra.

Certamente, em Botticelli, a metamorfose não é linguística, mas de natureza: uernas efflat ab ore rosas, da boca de Cloris exalam-se rosas primaveris, por força do “”sopro da paixão”” e se transforma na Beleza vitoriosa.

Não era outro o motivo pelo qual, nas Stanze per la Giostra di Giuliano (I, 68), compostas por Poliziano entre 1475 e 1478, Cloris e Flora assumiam uma única identidade:

al regno ov´ogni Grazia si diletta,
ove Biltà di fiori al crin fa brolo
tutto lascivo, drieto a Flora
Zefiro vola e la verde erba infiora

no reino em que a Graça deleita-se,
em que a Beleza faz guirlanda de flores nos cabelos
todo desejoso, atrás de Flora
Zéfiro voa e faz florir a verde erva

As duas figuras de Cloris e Flora entram quase em colisão, no quadro, o que foi por vezes considerado uma inépcia compositiva de Botticelli, quando na realidade se trata de um recurso apto a se obter um efeito narrativo calculado, tendente a demonstrar uma idéia temporal e psiquicamente complexa: a torsão de Cloris, que quase se desequilibra sob o impacto do ímpeto de Zéfiro, encontra sua resolução na metamorfose que a faz reaparecer sob a forma de uma figura em andante seguro, quase matronal, como uma esposa rústica que contempla o espectador com serenidade, como a demonstrar o resultado conclusivo de um processo.

É por tal metamorfose, concebida no sentido ovidiano, que a terra se cobre de flores, pois, como diz o poeta, na mesma passagem: “”Até então, a terra tinha sido de uma só cor””.

(continua no texto que acompanha a imagen do segundo detalhe da obra)

Artista

BOTTICELLI, Sandro

Data

1482c.

Local

Florença, Galleria degli Uffizi

Medidas

203 x 314 cm

Técnica

Têmpera sobre madeira

Suporte

Pintura

Tema

Mitologia, História e Topografia Antigas

Período

SÉCULO XV

Index Iconografico

1104Prim - A Primavera; 12Ven - Vênus Afrodite; 130Gra - As Graças Eufrosine, Tália e Áglae; 12Mer - Mercúrio Hermes; 10Venz - Zéfiro; 135 - Ninfas; 135clo - Cloris / Flora

Autor

Luiz Marques

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