Vista de um Mato Virgem que se está reduzindo a carvão

O debate em torno da questão ambiental no Brasil começou bem antes do que se imaginava. Em seu livro pioneiro, “Um Sopro de Destruição”, José Augusto Pádua revelou que, já no início do século XIX, a destruição das florestas brasileiras estava na agenda de políticos, intelectuais e artistas de grande relevo, como José Bonifácio, Joaquim Nabuco, Januário da Cunha Barboza, Gonçalves Dias e Manuel Araújo Porto Alegre.

O Museu Nacional de Belas Artes possui em seu acervo uma tela que aborda a questão e há muito tempo chama a atenção dos estudiosos da arte do século XIX. Trata-se de “Vista de um mato virgem que se está reduzindo a carvão”, pintada em 1843, pelo então diretor da Academia Imperial de Belas Artes, Félix-Émile Taunay (1795-1881).

O quadro tem sido interpretado como uma alegoria do embate entre natureza e civilização, tema que reaparece em outras obras do período, como Moema, de Victor Meirelles (1832-1903), pintada duas décadas depois.

A obra, no entanto, pode ser considerada um posicionamento do artista em relação a uma questão real que afetava a vida dos habitantes do Rio de Janeiro: a destruição das matas brasileiras, constituindo um indício de que seu engajamento político ia muito além das suas atividades na Academia.

O debate sobre a preservação das matas nativas do Brasil foi inaugurado no país por José Bonifácio de Andrada e Silva (1763-1838), que nos anos 1820 denunciou sua destruição e culpou o sistema escravocrata.

A partir da década de 1840, a questão entrou na pauta de instituições como o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB) e a Sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional (SAIN). O motivo era a ocupação dos morros nas cercanias da capital do Império com o cultivo do café, que estava destruindo a vegetação local.

Félix-Émile era filho do pintor Nicolas Antoine Taunay, que havia chegado ao Brasil em 1816, como integrante da Missão Artística Francesa, para fundar uma academia de artes. Mas como era difícil sobreviver no Rio de Janeiro apenas com a venda de quadros, Nicolas Taunay comprou terras no morro da Tijuca, onde fixou residência e montou seu cafezal. Assim que voltou para a França, em 1821, essas terras passaram para os filhos e foram administradas pelo primogênito Carlos Taunay. Como cafeicultor, ele logo se envolveu nos debates da Sociedade Auxiliadora e do IHGB e escreveu, em 1837, o Manual do Agricultor Brasileiro.

No livro, Carlos denunciava a destruição das matas próximas à capital, e recomendava aos agricultores que não abusassem “deste manancial de riqueza quase inesgotável que a natureza nos outorgou, não só pela razão da economia a favor dos nossos vindouros, como mesmo para a boa conservação da terra e temperamento da nossa atmosfera”.

Em sua opinião, a devastação das florestas estava destruindo o clima na capital: “a grande extensão que a cultura tomou nas vizinhanças da cidade, e o indiscreto corte de matas que causou, originaram sem dúvida esta alteração. O calor está notavelmente mais intenso, as trovoadas, outrora diárias, são raríssimas, e finalmente, de tantas fontes próximas à cidade, umas já secaram de todo e outras correm mais escassas”.

É impossível crer que Félix-Émile, também membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB), não acompanhasse as atividades da Sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional (SAIN) – criada em 1827 – e fosse indiferente a essas questões. Por esse motivo, o presente quadro pode ser entendido como um verdadeiro manifesto em defesa das florestas cariocas.

Sua composição divide-o em duas partes. À direita, vê-se uma floresta densa, majestosa e centenária, por onde corre um rio de águas claras que desemboca em um poço natural. Esse exemplo de mata atlântica é contraposto, à esquerda, a uma paisagem desoladora, onde homens negros trabalham sem cessar, derrubando a mata a machadadas e empilhando os enormes troncos para fazer uma fogueira.

(continua no texto que acompanha a imagem de detalhe)

Artista

TAUNAY, Félix-Émile

Data

1843

Local

Rio de Janeiro, Museu Nacional de Belas Artes

Medidas

134 x 195 cm

Técnica

Óleo sobre tela

Suporte

Pintura

Tema

Natureza Paisagem e Arcádia

Período

O SÉCULO XIX NA AMÉRICA HISPÂNICA E NO BRASIL (A PARTIR DE 1822)

Index Iconografico

1544 - O lenhador e o carvoeiro; 1604 - Paisagem devastada

Autor

Luiz Marques

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