Cena mágica com autorretrato

Inscrições, sobre a partitura: “P. v. Laer Canon a 3”. E em
baixo: “Il diavolo non burla no. Il Dia…”

A obra é assinada por Pieter Bodding Van Laer, chamado Il
Bamboccio (1599-1642), pintor de Haarlem ativo em Roma
entre 1625-1626 e 1637. Van Laer lidera na Urbe uma bem
sucedida congregação de pintores holandeses, adeptos da
lição de Caravaggio, que eles traduzem não sem ironia em
registro vulgar.

Opondo-se à Accademia di San Luca e veementemente criticados
pelos pintores e teóricos que se filiam ao ideal clássico do
Seiscentos, intitulam-se eles Bentveughels (pássaros
de uma pena), sendo em seguida conhecidos pelo termo
pejorativo Bamboccianti, a partir do apelido de Van
Laer, il Bamboccio, de difícil tradução: fantoche ou
boneco desengonçado.

A obra representa um Autorretrato e pode ser entendida,
segundo sugerem alguns estudiosos, como uma paródia do
“Menino Mordido por um Lagarto” de Caravaggio, no sentido de
uma representação dos sentidos e dos affetti mais
extremos. Aqui, a personagem é apavorada pela aparição do
diabo cujas garras invadem o limite direito da composição.
Tendo sido aparentemente evocado pelo cânon a três vozes,
que repete: Il diavolo non burla no (O diabo não
brinca não), o diabo responde ao apelo, aterrorizando o
pintor.

A afinidade da música com uma sabedoria hermética, bem como
de certa música com o Mal, são topoi centrais na
história da música, da literatura e da filosofia. O cânon e
em especial alguns de seus intervalos e contrapontos possuem
explícitas conotações demoníacas. Como notam Mario Giuseppe
Genesi (2005) e Michael Dodds (2012), a melodia descendente
de Si a Fa, tacitamente proibida, sugere o que se chamava na
ciência do contraponto o diabolus in musica.

Além disso, o livro aberto à direita com vários signos,
entre os quais uma estrela e um coração trespassado por uma
faca, os vermes que passeiam pelo copo, a provável
aguardente, a aranha que sobe à mesa e o fumegante crânio
sobre brasas são outros tantos signos que remetem ao domínio
do ocultismo, à alquimia, à magia negra ou à necromancia.

A obra é representativa de um gênero noturno, fantástico e
fantasmagórico, muito apreciado em Roma por uma clientela
sobretudo aristocrática e bem consolidado no Seiscentos,
inclusive graças a pintores italianos como Sigismondo
Coccapani, Salvator Rosa e outros.

Ainda que em registro jocoso, ela associa o artista, que
aqui se retrata, ao magus, especulador e manipulador
de forças sombrias que ele não controla. Evoluindo em busca
de revelação e de poder – entre a teologia, as diversas
vertentes da magia naturalis e a pura charlatanice -,
esta figura, envolta na aura terrível de seu pacto com o
príncipe das trevas, é encarnada historicamente pela obscura
personagem de Johann (ou Jörg) Faust (1480-1540c.),
professor em 1509 na Faculdade de Filosofia de Heidelberg.

Ainda no Quinhentos, ela encontrará sua mais transfigurante
expressão literária num anônimo Volksbuch intitulado
Historia von D. Johann Fausten, editado em 1587 por
Johann Spies em Frankfurt e traduzido já em 1611 para o
inglês, o francês, o holandês e o tcheco. De 1592, ou mesmo
antes, seria a primeira encenação da tragicomédia Doctor
Faustus
de Christopher Marlowe, publicada somente em
1604.

Não será decerto desprovido de sentido o fato de que o
pintor empreste seus traços a essa personagem eleita pelo
demônio. Mas não é ainda à relação entre a condição do
artista e o Mal que Van Laer alude. Isto posto, são
evidentes os desdobramentos dessa sensibilidade auto-
satírica na constituição da imagem de si do artista anti-
burguês e “maldito”, que tanta fortuna terá no período
romântico.

A obra é de difícil datação. Alexander Wied sugere uma data
posterior a 1637, o que faria dela a única tela conhecida do
artista após seu retorno a Haarlem.

Luiz Marques
05/04/2012

Bibliografia:
1991 – D. A. Levine, E. Mai, I Bamboccianti. Niederländische
Malerrebellen im Rom des Barock. Catálogo da exposição.
Colônia, Wallraf-Richartz-Museum. Milão: Electa, cat. 19.7.
1996 – D. A. Levine, ´Pieter Bodding van Laer”. The Grove
Dictionary of Art, vol. 18, ad vocem.
2000 – A. Wied, “Scena magica con autoritratto”. In, S.
Ferino-Pagden, Dipingere la Musica. Strumenti in posa
nell´arte del Cinque e Seicento. Catálogo da Mostra. Milão,
p. 127.
2005 – M. G. Genesi,”Per una decodifica dei dettagli magico-
musicali nella Scena magica con autoritratto di Pieter
Bodding van Laer. Music in Art, New York.
2012 – M. Dodds, “The Canon in Pieter van Laer´s Self-
Portrait with Magic Scene”
http://www.lehman.edu/academics/arts-
humanities/sscm/abstracts.php

Artista

VAN LAER, Pieter Bodding

Data

1637(post?)

Local

New York, The Metropolitan Museum of Art

Medidas

80 x 115 cm

Técnica

Óleo sobre tela

Suporte

Pintura

Tema

Alegorias e Temas Artísticos Morais e Psicológicos

Período

SÉCULO XVII

Index Iconografico

750 - O Diabo; 1153 - A Alquimia e o Alquimista; 1179 -
Magia, Bruxaria, Taumaturgia, Ocultismo, Necromancia; 1625 -
Natureza Morta; 1700C3 - Artistas e Autorretratos

Autor

Luiz Marques

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