Um ateliê de artista em 1804, chamado O Ateliê de David

Em uma carta ao pintor Isabey, datada de 1806, Jacques-Louis David (1748-1825) menciona cinco artistas que ele prefere, dentre os numerosos que frequentam seu ateliê, e aos quais oferece um jantar em sua casa :

Mon cher Isabey, je rassemble pour demain mercredi, à dîner chez moi, les élèves qui m´ont le plus fait honneur. (…) Ces élèves sont Fabre, qui arrive de Florence; Girodet, Gros, Gérard et toi, pas davantage”.

“Meu caro Isabey, reúno amanhã, quarta-feira, para um jantar em casa, os alunos que mais me têm honrado. (…) São eles: Fabre, que está chegando de Florença, Girodet, Gros, Gérard e você, e basta”.

Nomes imensos são omitidos por David, como Drouais e Ingres, mas se trata naturalmente dos artistas da nova geração, admitidos ao convívio do mestre por ocasião do “Juramento dos Horácios”*: François-Xavier Fabre (1766-1837), Anne-Louis Girodet (1767-1824), Antoine-Jean Gros (1771-1835), Francóis Gérard (1770-1837), Jean-Baptiste Isabey (1767-1855).

Entre 1781 e 1821, aproximadamente 400 artistas “passam” pelo ateliê de David, apelidado após 1785 l´atelier des Horaces, pois a célebre obra pintada neste ano era exibida neste espaço, aberto por David especialmente para o ensino e a interação com os jovens artistas.

Os artistas que frequentam esse ciclópico ateliê por volta de 1800 são legião, como o são os aprendizes de outros ateliês parisienses contemporâneos, tais como os de François-André Vincent (1746-1816) e Jean-Baptiste Regnault (1754-1829), os únicos talvez capazes de rivalizar com o de David.

É esta “Officina parigina”, ainda hierárquica, mas ruidosa, emulatória, plena de camaradagem e pronta à dissidência – tal como a de Ferrara imaginada por Roberto Longhi – que Jean-Henri Cless, petit-maître e miniaturista de Strasburgo, discípulo de David e ativo nos Salões de Paris entre 1804 e 1811, encena neste desenho finamente elaborado.

Era então nascente este gênero de retrato de grupo de artistas celebrando o mito do criador em sua oficina como novo Vulcano. Em 1798, Louis-Léopold Boilly (1761-1845) pintara sua Réunion d´artistes dans l´atelier d´Isabey* e o gênero ganharia força com o L´Atelier de Horace Vernet (1820c.) para atingir seu apogeu na descomunal composição de Gustave Courbet no Musée d´Orsay, já de 1855.

Neste mesmo ano, meio século depois deste “Ateliê de David” de Cless, em um ambiente já pleno de incertezas e procuras, o pintor e crítico de arte Etienne-Jean Delécluze (1781-1863) deixará um testemunho direto, anacrônico e polêmico, daquela distante experiência, em sua obra Louis David, son école et son temps – Souvenirs (revisado em 1863).

A cena proposta por Cless mostra dezoito artistas absortos na ação ou na discussão, em uma atmosfera mutuamente roborativa. Copiam um modelo em gesso de um Apolo em vias de dobrar seu arco, enquanto um deles abre a janela para deixar penetrar mais luz no ateliê.

Uma elegia de Casimir de la Vigne (1793-1843) intitulada “La Dévastation du Musée et des Monuments”, publicada no primeiro livro de suas Les Messéniennes (1824), dá uma ideia da força pregnante e quase mítica desse ateliê:

David a ramené son siècle en la nature
Parmi ses nourrissons il compte des rivaux
Laissons-là s´élever cette école nouvelle
Le laurier de David de lauriers entouré
Fier de ses rejetons, enfante un bois sacré
Qui protège les arts de son ombre éternelle
.

(David trouxe seu século de volta à natureza / Entre suas criaturas contam-se seus rivais / Deixemos elevar-se esta nova escola / A coroa de louros de David de coroas rodeada / Orgulhosa de seus filhos, infanta um bosque sagrado / Que protege as artes com sua sombra eterna)

Luiz Marques
03/02/2011

Bibliografia:
18575 – E.-J. Delécluze, Louis David, son école et son temps – Souvenirs, Edição revisada de 1863. Nabu Press, 2010
2005 – R. Dagorne, “Introduction” à Au-delà du maître. Girodet et l´atelier de David. Catálogo da exposição. Paris: Somogy Editions d´Art, pp. 12-13.
2005 – S. Lemeux-Fraitot, “Faire oeuvre d´atelier”. In Au-delà du maître. Girodet et l´atelier de David. Catálogo da exposição. Paris: Somogy Editions d´Art, pp. 16-27
2008 – L. Marques, “Taunay, superação e morte do artista”. In, L. M. Schwarcz e E. Dias, Nicolas-Antoine Taunay no Brasil. Uma leitura dos trópicos. Rio de Janeiro: Sextante Artes, pp. 204-213.

Artista

CLESS, Jean-Henri

Data

1804

Local

Paris, Musée Carnavalet

Medidas

462 x 582 mm

Técnica

lápis, lavis e pena

Suporte

Pintura

Tema

Alegorias e Temas Artísticos Morais e Psicológicos

Período

50 - SÉCULO XIX

Index Iconografico

1111 - O Mundo e o Mito do Artista; 1111L - O ateliê do artista

Autor

Luiz Marques

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