Laocoonte e seus filhos (imagem 2)

“(continuação do comentário da imagem 1:
http://www.mare.art.br/detalhe.asp?idobra=3645)

Diante do júbilo dos troianos, que discutem o destino a dar
ao cavalo, Laocoonte
intervém:

“”Enquanto incerto e vário altarca o vulgo
Ardendo Laocoon da cidadela
Parte com basto séquito, e de longe:
´Míseros cidadãos, que tanta insânia!
De volta os Gregos ou de engano exemptos
Seus dons julgais? desconheceis Ulisses?
Ou este lenho é couto de inimigos,
Ou máquina que, armada contra os muros,
Vem cimeira espiar e acometer-nos.
Teucros, seja o que for, há dano oculto,
Não fieis do cavalo: eu temo os Dânaos,
Mesmo em seus brindes. E a falar, de esguelha
À curva liação do bucho equino
Com braço válido hasta ingente arroja:
Pregada está tremendo, e ao rude embate
Longo geme e retumba a atra caverna.

Surge então nos versos II, 57-194 a figura de Sinon, que
Virgílio chama, no verso 152 de dolis instructus et arte
Pelasga
(“”perito na arte grega do dolo””).

Fazendo-se passar por vítima sacrificial dos gregos, induz
os troianos a acolherem a estátua, consagrada à Atena (donum
exitiale Minervae), sob pena de incorrerem na cólera da
deusa (vv. 183-194).

Eis que os troianos, já perplexos, veem, subitamente, surgir
do mar duas serpentes que atacam e matam os filhos de
Laocoonte e o próprio sacerdote que tenta defendê-los (vv.
199-227):

“”Um portento maior, mais formidável,
Impróvidos nos turba. À sorte eleito,
O antiste Laocoon sacrificava
A Netuno com pompa um touro enorme.
De Tênedos (refiro horrorizado)
Juntas, direito à praia, eis duas serpes
De espiras cento ao pélago se deitam:
De fora os peitos e as vermelhas cristas
Entonam; sulca o resto o mar tranquilo,
E encurva-se engrossando o imenso tergo:
Soa espumoso o páramo salgado.
Já tomam terra, e em brasa e cruor tintos
Fulmíneos olhos, com vibradas línguas
Vinham lambendo as sibilantes bocas.

Tudo exangue se espalha. O par medonho
Marchando a Laocoon, primeiro os corpos
Dos dous filhinhos seus abrange e enreda,
Morde-os e come as descosidas carnes;
Ao pai, que armado avança, ei-las saltando
Atam-no em largas voltas, e enroscadas
Duas vezes à cintura, ao colo duas,
O enlaçam todo os escamosos dorsos,
E por cima os pescoços lhes sobejam,
De baba e atro veneno untada a faxa.
Ele em trincar os nós com as mãos forceja,
E de horrendo bramido aturde os ares:
Qual muge a rês ferida ao fugir d´ara,
Da cerviz sacudindo o golpe incerto.
Vão-se os dragões serpeando ao santuário,
E aos pés da seva deusa, enovelados,
Sob a égide rotunda ambos se asilam””.

(tradução de Odorico Mendes)

No que se referem às representações visuais do mito, a mais
importante é a que propõe este celebérrimo grupo do
Vaticano, exumado em 14 de janeiro de 1506 no Colle
Oppio
em Roma e universal e imediatamente acolhido como
o mais excepcional e superlativo exemplo da excelência da
escultura antiga.

A interpretação da obra é hoje controvertida, oscilando
sobretudo entre a proposta de Bernard Andreae (1988) que
nele vê uma cópia executada nos anos do Principado de
Tibério (14-37) a partir de um original brônzeo pergameno
dos anos 140 a.C. circa, e a proposta de Salvatore Settis
(1999) que entende a obra como um original dos anos 40 – 20
a.C., grosso modo, portanto, contemporâneo do poema
de Virgílio.

Ambas as interpretações lançam mão de leituras diversas da
única referência textual à presente escultura, consignada na
Naturalis historia, XXXVI, 37 de Plínio (70-79 d.C.),
referência que muito contribuiu, ao lado obviamente da
excepcional qualidade artística da obra, para sua imediata
celebridade na Idade Moderna.

Após elencar uma série de célebres escultores e suas
esculturas, fora de Roma e na Urbe, tais como as de Gaio
Asinio Polion (75-4 a.C.), do Pórtico de Otávia, dos
horti Serviliani (de Servilius Nonianus), etc., Plínio
acrescenta:

Nec deinde multo plurimum fama est, quorundam claritati
in operibus eximiis obstante numero artificum, quoniam nec
unus occupat gloriam nec plures pariter nuncupari possunt,
sicut in Laocoonte, qui est in Titi imperatoris domo, opus
omnibus et picturae et statuariae artis praeferendum. Ex uno
lapide eum ac liberos draconumque mirabiles nexus de
consilii sententia fecere summi artifices Hagesander et
Polydorus et Athenodorus Rhodii

“”Além desses, não há muitos outros escultores que gozem de
fama, pois mesmo entre certas obras insignes, o fato de
nelas terem trabalhado numerosos artistas prejudica a glória
de cada um deles, pois esta não pode ser apanágio de um só,
nem muitos podem dividi-la paritariamente, tal como no caso
do Laocoonte que está no palácio do imperador Tito, obra que
se deve preferir a todas [deste tema] em pintura e em
bronze. Fizeram-na, em concerto, de um só tipo de mármore
[ou de um só bloco?] – Laocoonte, seus filhos e os
admiráveis entrelaçamentos das serpentes – os sumos artistas
Agesandro, Polidoro e Atenodoros, de Rodes””.

(continua no comentário à imagem 3 do Laocoonte)”

Artista

Agesandro, Atanadoro e Polidoro

Data

-40c. / 20 a.C. ou 14 / 37 d.C.

Local

Vaticano, Museo Pio Clementino

Medidas

242 cm de altura

Técnica

Mármore

Suporte

Escultura

Tema

Mitologia, História e Topografia Antigas

Período

ARTE GRECO-ROMANA

Index Iconografico

84 - Eneida; 84laoc - Laocoonte II.199-231

Autor

Luiz Marques

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