Uma visão dos Yanomami.

“A aproximação à fotografia que tem o indígena como protagonista é sempre um tema profundamente controverso que carrega implícita a própria visão do fotógrafo e desse `outro antropológico` visto como minoria. Neste sentido, existe um elemento inevitável ligado à visão eurocentrista do mito do bom selvagem ou `Noble Savage` que se desenvolve a partir do século XVII como parte da tradição ocidental nas artes e na literatura e que parte da visão idílica do homem em comunhão com natureza.
Nascida em Neuchâtel, na Suíça, em 1931, Claudia Andujar se muda para o Brasil em 1955, onde trabalha como fotojornalista para publicações nacionais e internacionais, como as revistas Realidade, Life e Quatro Rodas. Será a partir da publicação do último número da revista Realidade em 1971, com a matéria “”Amazônia””, que Cláudia Andujar estabelece seu primeiro contato com o povo indígena Yanomami. O interesse suscitado na artista por esta comunidade se converterá, depois da desaparição da revista, num projeto pessoal financiado pela John Simon Guggenheim Foundation de Nova Iorque, em 1971, e mais tarde, em 1976, pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, permitindo que a artista se introduza na vida dos Yanomami, fazendo deste trabalho, um projeto de vida, mais do que de criação fotográfica.
Nesta obra, a representação da infância, denuncia a permanência e o apego de certos convencionalismos da sociedade ocidental por parte de Claudia Andujar. O tratamento do modelo evidencia que a ideia da inocência do índio prevalece. Volta a se sobressair a visão do indígena como um desvalido social, como ser cuja imaturidade o coloca numa postura vulnerável. Este retrato pode ser qualificado como `cândido`, ainda que oposto ao conceito da `Candid Photography` desenvolvido na primeira metade do século XX, em que o retratado desconhece a presença do fotógrafo. No caso da artista, a candidez do referente não está dada pelo desconhecimento, mas pelo tratamento de seus referentes, no qual identificamos uma exploração da ideia de `inocência` da criança.
Claudia Andujar concentra toda a força de sua imagem através do close-up nos olhos da menina, olhos escuros e brilhantes. Se partimos do princípio que entre a encenação ficcional e a pretensa objetividade do documentário ´não existe uma fronteira de princípio´; entendemos que as crianças podem ser vistas como o símbolo da postura do Estado brasileiro perante o indígena, que legalmente se encarrega de sua custódia colocando-o numa situação de adolescência social, por assim dizer. Estas obras se apresentam ante o receptor como uma tentativa por parte da artista de estender essa `responsabilidade governamental` pelo indígena para o resto da sociedade. No ano de 1978, ano a que pertence este retrato infantil apresentado pela fotógrafa na Primeira Mostra Latino-Americana de Fotografia Contemporânea no México, Claudia Andujar será expulsa do território Yanomami e enquadrada na Lei de Segurança Nacional graças ao seu `suspeito` interesse por esses índios.

Mónica Villares Ferrer, Mestre em História da Arte
20/05/2010.

Bibliografia:
SOUZA, Jorge Pedro. (2004). Op. Cit. Pág. 52.

Artista

ANDUJAR, Claudia

Data

1978, Roraima, Brasil.

Local

Centro de la Imagen, México DF.

Medidas

24,5 x 32 cm

Técnica

Fotografia

Suporte

Pintura

Tema

Vida Social e Gênero

Período

O SÉCULO XX NA AMÉRICA HISPÂNICA E NO BRASIL

Index Iconografico

1700C1 - Retratos contemporâneos; 1210Ind - O Indígena americano e os indigenismos

Autor

Luiz Marques

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