Pigmalião e a Estátua de Afrodite (detalhe)

“(continuação do comentário à imagem principal, veja-se:
http://www.mare.art.br/detalhe.asp?idobra=3637)

“”Estupefato, ele hesita em se rejubilar, temendo se enganar.
Sua mão apalpa mais e mais o objeto de seu desejo. É um
verdadeiro corpo! Ele sente palpitar-lhe as veias ao contato
de seu polegar. Então, o herói de Pafos rende à Vênus longas
ações de graças””.
 
Na Vita di Pontormo (1568), Giorgio Vasari informa
que Bronzino pintou este quadro como coperchio para
um retrato que Pontormo executara de Francesco Guardi em
veste de soldado. Este retrato não terá se conservado, a
menos que não se trate daquele que hoje se exibe no Getty
Museum de Los Angeles, o que é improvável, como o demonstram
Antonio Pinelli e outros estudiosos , que o identificam
como um retrato de Cosimo I por volta de 1537 ou 1538.

O coperchio (cobertura) era um quadro destinado a
cobrir um retrato, normalmente com uma representação alusiva
ao mote ou a uma particular virtude do retratado ou ainda a
um evento ligado à encomenda do retrato. Deste gênero de
pintura, relativamente comum nos séculos XV e XVI, não se
conservaram senão pouquíssimos exemplares:
 
Ritrasse [Pontormo] similmente nel tempo dell´assedio
di Fiorenza Francesco Guardi in abito di soldato, che fu
opera bellissima; e nel coperchio poi di  questo quadro
dipinse Bronzino Pigmalione che fa orazione a Venere, perché
la sua statua, ricevendo lo spirito, s´aviva e divenga (come
fece secondo le favole d´i poeti) di carne e d´ossa
.
 
[Pontormo] “”Retratou da mesma maneira, no tempo do assédio
de Florença, Francesco Guardi em veste de soldado, uma obra
belíssima. E para o coperchio deste retrato Bronzino
pintou Pigmalião que faz uma oração a Vênus, para que a
estátua, recebendo um espírito, ganhe vida e se torne de
carne e osso (tal como narrado nas fábulas dos poetas)””.
 
Segundo Elizabeth Cropper, nascido em 1514, Francesco Guardi
não teria encomendado este coperchio para festejar
suas núpcias, já que não se casa com Selvaggia Cambini antes
de 1534-1535, alguns anos depois, portanto, da execução da
obra (1529-1532c.). Um motivo especial para a encomenda
seria, sempre segundo Cropper, o fim do assédio de Florença
pelas tropas do imperador Carlos V e de Clemente VII. Neste
caso, a paisagem árida do quadro aludiria às propriedade de
Guardi arrasadas pelas devastações do longo assédio.
 
A inscrição sobre o altar Heu vi[cit] Venus (Ah,
infelizmente Vênus venceu) refere-se ao pomo da discórdia
que Vênus tem nas mãos, seu troféu no torneio que a
consagraria como a deusa mais bela, segundo o veredito de
Páris contra Hera e Atena, sentença que está na origem da
Guerra de Troia. O paralelo entre esta guerra mítica e a
guerra civil é complementado com a associação entre
Francesco Guardi e Marte, representado no relevo protegendo
Vênus (Florença), ao colocar-lhe a mão sobre o ombro.

A interpretação de Cropper não parece inteiramente
satisfatória na medida em que tenta decifrar a fábula em
registro político, quando o tema do quadro é de cunho
incontornavelmente amoroso. Não é inverossímil que haja uma
componente política na iconografia do quadro, tanto mais se
se o data dos anos da tirania do duque Alessandro de´
Medici, o que justificaria uma mensagem política cifrada.

Mas tal interpretação simplesmente não dá conta do que está,
de fato, sendo aqui representado, isto é, uma síntese visual
da narrativa de Ovídio, com a metamorfose da estátua
(segundo o modelo da Afrodite de Cnido) ainda sobre seu
pedestal, mas já vista nas cores de uma mulher.

Costuma-se chamar esta estátua de Galateia, o que é
arbitrário. Nem Ovídio, nem Vasari dão-lhe esse nome, que é
o de duas distintas personagens mitológicas. O nome Galateia
só teria a seu favor o fato de designar uma figura branca
como o leite – isto é, uma figura nascida do mármore -, já
que em grego gala significa leite.
 
Luiz Marques
21/02/2012
 
 
Bibliografia:
8 d.C. ante – Ovídio, Metamorfoses, ed. bilingue por G.
Lafaye. vol. III, Paris, Belles Lettres, 1960.
1568 – G. Vasari, Vita di Pontormo, ed. Bettarini-Barocchi,
vol. V, p. 325.
1996 – E. Cropper, in A.M. Petrioli Tofani, L´officina della
maniera. Varietà e fierezza nell´arte fiorentina del
Cinquecento fra le due repubbliche 1494-1530. Catálogo da
exposição Pontormo e Rosso, la “”maniera moderna”” in Toscana.
Florença: Marsilio, p. 378.
2004 – A. Pinelli, “”Tiranno o difensore della libertà?
L´enigma dell´Alabardiere””. La Bellezza impura. Arte e
politica nell´Italia del Rinascimento. Bari: Laterza, pp.
123-154.
2008 – V. I. Stoichita, The Pygmalion effect. From Ovid to
Hitchcock. The University of Chicago Press, pp. 128-130″

Artista

Bronzino, Agnolo di Cosimo di Mariano, chamado Il

Data

1529c. / 1532c.

Local

Florença, Galleria degli Uffizi

Medidas

81 x 63 cm

Técnica

Óleo sobre madeira

Suporte

Pintura

Tema

Mitologia, História e Topografia Antigas

Período

36 - SÉCULO XVI

Index Iconografico

1111 - O Mundo e o Mito do Artista; 1111C1 - Pigmalião e
Galateia

Autor

Luiz Marques

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