O Sacrifício de Isaac

Em 1401, a Signoria de Florença e a Arte di Calimala (Vasari) lançaram um concurso para a criação da segunda porta brônzea do Batistério. A prova é a execução de um relevo brônzeo na forma trilobata dos relevos da primeira porta, criada por Andrea Pisano* ente 1330 e 1336.

O tema de Abraão seguro pelo anjo quando prestes imolar seu filho, Isaac, (Gênesis, 22) era recorrente na iconografia cristã desde o sarcófago de Junius Bassus, morto em 359 (Vaticano), pois considerado uma prefiguração alegórica do sacrifício de Cristo. Não por acaso, Brunelleschi representará uma Anunciação na base do altar sacrificial.

Ao concurso, apresentam-se sete concorrentes, dentre os quais três dos maiores artistas toscanos do momento: Jacopo della Quercia (com 27 anos), Lorenzo Ghiberti (com 23) e Filippo Brunelleschi (com 24). Embora a encomenda tenha sido, como se sabe, atribuída a Lorenzo, os dois biógrafos de Brunelleschi – Manetti (1480c.) e Vasari (1550) – fornecem versões muito diferentes dos fatos.

Na Vita di Filippo Brunelleschi, Giorgio Vasari afirma que Brunelleschi e Donatello foram os primeiros a reconhecer a primazia de Ghiberti:

“Apresentadas as obras, Filippo e Donato [Donatello] não se satisfizeram senão com a de Lorenzo e julgaram-na dentre todas a mais apta. E com boas razões persuadiram os cônsules a lhe confiar a obra. (…). E foi esta verdadeiramente uma generosidade de amigos e uma virtude sem inveja, e um juízo são em conhecer-se a si próprio, de modo que merecem mais louvor por isso que se tivessem executado a obra”.

Outra é a versão proposta desse celebérrimo certame por Antonio Manetti (1423-1497) em sua biografia de Brunelleschi. Para Manetti, os juízes concederam o primeiro lugar ex aequo a Ghiberti e a Brunelleschi, mas este acabou renunciando à encomenda por obstinadamente se recusar a dividi-la com o rival. Trata-se obviamente de uma versão inteiramente favorável a Brunelleschi e a seu clã:

“Filippo fez sua história naquela forma que presentemente se vê, e a fez rapidamente, porque possuía sua arte galhardamente. Pronta, polida e tudo o mais, não se interessou em mostrá-la a ninguém, pois (…) não era jactancioso e esperava o momento do confronto. Lorenzo, ao que se diz, tinha medo do talento (virtù) de Filippo, pois era este bastante evidente, e não se sentia no mesmo comando da arte. Assim, avançou devagar. E ouvindo algo da beleza do relevo de Filippo, cogitou, como homem valente, proceder de modo industrioso, humilhando-se, pedindo conselho a todos que lhe parecessem, como entendidos, poder julgá-lo, tais como ourives, pintores, outros escultores, etc., de modo a não fracassar no confronto. (…). E chegou enfim o momento do confronto e do juízo. O juri [Operai ed Ufficiali] aconselhou-se justamente com as pessoas indicadas por Ghiberti, que eram de fato as que mais entendiam (e talvez não houvesse outras) e que haviam acompanhado de perto a obra de Lorenzo. E não tendo nenhum deles visto a de Filippo, acreditavam que, não Filippo, mas nem mesmo Policleto pudesse fazê-la melhor, pois a fama de Filippo não era ainda grande, ele era jovenzinho e tinha a mente mais voltada ao fazer que ao parecer. Mas quando viram a sua, todos ficaram estupefatos e maravilhados com as dificuldades que ele havia enfrentado (…)”

Os juris tomaram foram então do seguinte parecer: “que ambos os modelos eram belíssimos e que não sabiam, tudo bem aquilatado, discernir o melhor, e que, dado que a obra era grande e demandava muito tempo e despesa, que a confiassem aos dois e que nela fossem parceiros. Convocados Filippo e Lorenzo, foram-lhes transmitidas estas palavras, Lorenzo calava-se, enquanto Filippo não admitiu jamais aceitar a encomenda se não lhe fosse inteiramente atribuída”.

É evidente que o modelo de Brunelleschi é menos “elegante” que o de Ghiberti, posto que mais carregado de expressão, a começar pelo torso de Isaac quase desfeito pela violenta torsão que lhe impõe o gesto de Abraão.

Por outro lado, sua provável “citação” do Spinario* na figura que tira um espinho do pé, tão admirada por Vasari, indica um interesse menos idealizado, mas não menos atualizado, pela escultura antiga.

Luiz Marques
16/01/2011

Bibliografia
1480c. – Antonio Manetti, Vita di Filippo Brunelleschi. Edição aos cuidados de C. Perrone, Roma, Salerno Editrice, 1992, pp. 58-63
1550 – G. Vasari, Vita di Filippo Brunelleschi, scultore et architetto. Edição aos cuidados de L. Grassi, Novara, 1967, p. 249

Artista

BRUNELLESCHI, Filippo

Data

1401

Local

Florença, Museo Nazionale del Bargello

Medidas

45 x 38 cm

Técnica

Bronze

Suporte

Escultura

Tema

Bíblia e Cristianismo

Período

SÉCULO XV

Index Iconografico

516.26 - O Sacrifício de Isaac

Autor

Luiz Marques

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