A Tentação de Santo Antonio Abade

Na dinâmica emulatória do adolescente Michelangelo (1475-1564), descrita por Giorgio Vasari em sua Vida do artista, uma passagem importante diz respeito a seu enfrentamento com Martin Schongauer que Vasari acredita ser representativo dos artistas “flamengos”:

“Domenico [Ghirlandaio] decorava então a capela grande de Santa Maria Novella e estando fora um dia, Michelangelo começou a desenhar diretamente o andaime, com algumas mesas e todos os instrumentos de trabalho, e a representar alguns jovens que ali trabalhavam. Ao voltar e ver o desenho, Ghirlandaio disse: “Este aqui supera meu conhecimento de desenho”, e ficou boquiaberto com a nova maneira e imitação que, com o juízo recebido do céu, aquele jovem possuía em idade tão tenra. Era, na verdade, o que de melhor se poderia desejar da prática de um artista que já houvesse trabalhado muitos anos, pois todo o saber e poder da graça estavam na natureza, aperfeiçoada pelo estudo e pela arte. Pois em Michelangelo despontavam a cada dia frutos mais divinos que humanos, como claramente começou a se demonstrar com a cópia de uma gravura de Martino Tedesco, que lhe deu grandíssima reputação.

Chegara em Florença uma cena do dito Martino, com os demônios que surram Santo Antônio, gravada em cobre, e Michelangelo copiou-a a pena, em uma maneira desconhecida, colorindo-a em seguida. E obteve grande renome quando se inspirou em peixes com escamas de cor bizarra, para simular algumas estranhas formas de demônios”.

O interesse pela observação naturalista que Vasari atribui a Michelangelo nessa anedota parece funcionar como um topos do engajamento do adolescente na superação dos grandes mestres nórdicos, mas também como uma antecipação do tratamento dispensado aos demônios pelo artista maduro no Juízo Final da Capela Sistina (1536-1541), quando, segundo o biógrafo, Michelangelo demonstrará grande variedade ao criar “monstros verdadeiramente do inferno”

A identificação dessa cópia realizada pelo adolescente foi objeto de diveras tentativas desde o século XIX. Para Galichon [1859:332], a cópia de Michelangelo encontrava-se em Milão até o início do século XIX.

Em 1840, Gaetano Giordani, tendo visto a cópia, afirma ser ela duas vezes e meia maior que a gravura. Partindo dessas informações, Mantz [1876:123] tenta identificá-la com uma pintura que se conservava em 1854 na coleção Bianconi de Bolonha.

A presente versão – outrora conservada em coleção inglesa e hoje no Kimbell Art Museum de Fort Worth (Texas) – goza de maior favor na crítica moderna. Trata-se de uma pintura a têmpera e óleo sobre madeira, o que contraria Vasari (que a descreve como um desenho a pena) mas coaduna com os testemunhos de Ascanio Condivi (“tavola di legno”) e de Benedetto Varchi [1564] (“quadretto di legno”).

Já pertencente ao escultor Baron Henri-Joseph-François de Triqueti, ela foi publicada em 1861 e exposta em Paris em 1874, sendo de novo atribuída a Michelangelo por Haug [1960:71] quando exposta no Fitzwilliam Museum de Cambridge.

Camesasca [1966:5,n.1] considera-a “provavelmente autógrafa ou ao menos uma boa cópia de Michelangelo”. Para Tolnay [1971:5], “a atribuição não deve ser descartada completamente” (“non è completamente da respingere”). Hirst [1994:128.n.5] considera-a obra do ateliê de Ghirlandaio.

Joannides pende para a autoria de Granacci. Treves, in Weil-Garris Brandt et alia [1999:329], considera a hipótese de que o exemplar hoje no Texas seja o original como “mais provável” que a obra na coleção Bianconi. Keith Christiansen (declaração ao New York Times de 13 de maio de 2009) reafirma a autografia de Michelangelo.

Luiz Marques
07/01/2011

Artista

Michelangelo Buonarroti (atribuído a)

Data

1490c.

Local

Fort Worth (Texas), Kimbell Art Museum

Medidas

47 x 35 cm

Técnica

Óleo sobre madeira

Suporte

Pintura

Tema

Bíblia e Cristianismo

Período

SÉCULO XV

Index Iconografico

806 - Imagens e Ciclos Biográficos de santos; 806AntA - Santo Antônio Abade

Autor

Luiz Marques

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