O Nascimento de Atena na forja de Vulcano

Em uma passagem entre o palácio e o castelo de Ferrara,
sobre a Via Coperta, perfilavam-se dois Camerini: um
menor, adjacente ao quarto de dormir de Alfonso I, duque de
Ferrara (1476-1534), e outro Camerino maior, em que
se adentrava atravessando o primeiro.

Enquanto o ambiente maior enriquecia-se com as pinturas de
Dosso Dossi, Tiziano e Giovanni Bellini. O ambiente menor,
chamado por Vasari de grotta, exibia relevos de
mármore de autoria de Antonio Lombardo (1458c.-1516?), razão
provável de ser chamado Camerino di Alabastro.

Os 33 ou 37 relevos marmóreos deste artista veneziano,
executados entre 1506 e 1511, situavam-se, ao que parece,
apenas na grotta, intitulada studio de´ prede
vive
(das pedras vivas). Desses relevos, 28 encontram-se
hoje em S. Petersburgo e os demais no Louvre, no Bargello e
em Liechtenstein.

Sobre seis desses relevos, lêem-se máximas morais de Cícero
e Sêneca. Já analisadas por Sarchi, elas referem-se à
virtude como via media, como domínio de si e como
equilíbrio entre ação e contemplação:

A partu virg. / M. D. VIII. Alf(onsus) D(ux). Hoc sibi
ocii / et quietis / ergo. cond(idit)
.
“No ano 1508 do parto da Virgem. Duque Alfonso. Este [local]
de ócio e repouso fundou para si”.

Hic / nunqua(m) / minus solus / quam cum solus.
“Aqui, nunca menos só que quando só”, frase que Catão
atribuía a Cipião Africano segundo o De officiis
(III,1,1) de Cícero e que indica a presença da vida ativa na
contemplativa;

Et quiescenti / agendum est / et agenti quiescendum
“O ocioso deve agir, o ativo, aquietar-se”. A máxima com que
Sêneca conclui sua epístola a Lucílio (I,3) reitera o ideal
de equilíbrio entre vida ativa e contemplativa.

Bis vincit qui / Se vincit. “Vence duas vezes quem se
vence”, duas inscrições separadas com a máxima atribuída a
Publius Syrus, que Sêneca parafraseia na epístola a Lucílio
(113, 30) sobre a “justiça, a força e a prudência”, ao
considerar a vanidade das conquistas de Alexandre:
imperare sibi maximum imperium est.

Ne quid nimis (Nada em excesso), máxima délfica
difusa em vários auctores antigos e medievais.

O elemento doutrinal que ressalta na decoração do studio
de´ prede vive
é, como se vê, o culto da temperança
sobre a paixão, a vitória da ponderação sobre o ímpeto, da
paz sobre a guerra.

Os dois relevos mais importantes que se conservaram deste
Camerino di Alabastro – a cuja decoração o duque
dedicara durante 25 anos o melhor de suas energias como
mecenas – são a “Disputa entre Palas Atena e Poseidon pelo
domínio da Ática”* e este outro relevo de equívoca
identificação, em que se tende a reconhecer o “Nascimento de
Atena na Forja de Vulcano”.

Em favor desta identificação, deve-se sublinhar o detalhe da
figura alegórica no arco sobre Zeus em estado de sofrimento,
que pode ser identificada com a Justiça, atributo de Atena.

Até 1506, data da elaboração do programa do studio de´
prede vive
, o tema do Nascimento de Atena, tratado por
Píndaro (Ol. VII,65) e Filóstrato, o Velho (Imag. 27), entre
outros, não fora, ao que consta, objeto de representações
visuais modernas.

Até onde é dado saber, apenas em Ferrara vemos coexistirem
os dois temas do Nascimento de Atena da cabeça de Júpiter e
de sua Vitória sobre Poseidon, que sublinham, em conjunto, o
caráter “racional” de Atena, surgida de um parto cerebral de
Júpiter e promotora do ramo de oliva da paz e da
agricultura, em oposição ao caráter passional e marcial do
cavalo de Netuno.

Esta coexistência só pode ser atribuída a uma referência
literária: a descrição de Pausânias dos frontões do
Parthenon, segundo sua “Descrição da Grécia” (Ática,xxiv,5):

“no templo chamado Parthenon, todas as esculturas que se
vêem no frontão referem-se ao nascimento de Atena e no
frontão posterior, à disputa pelo país entre Atena e
Poseidon”.

O texto de Pausânias, mencionado em 1504 pelo escultor
Pomponio Gauricus, um amigo dos irmãos Lombardo, é relevante
para a compreensão desse programa. Pois enquanto as obras de
Antonio Lombardo remetiam à casta sapiência de Minerva, as
pinturas da sala ao lado mergulhavam o espectador nos amores
entre deuses e mortais, num jogo de contrários
complementares entre studio e delectatio,
tipicamente humanista.

Luiz Marques
09/11/2011

Bibliografia:
1996 – S. Blake McHam, “Antonio Lombardo”. Grove Dictionary
of Art, ad vocem.
2003 – A. Sarchi, “Le cabinet de´ prede vive”. In J.
Bentini, G. Agostini, Une Renaissance singulière. La cour
des Este à Ferrare. Catálogo da exposição, Bruxelas, Palais
des Beaux-Arts. Milão: Silvana Editoriale, pp. 289-293.
2004 – M. Folin, Studioli, vie coperte, gallerie: genealogia
di uno spazio del potere. In, M. Ceriana, Il Camerino di
alabastro. Antonio Lombardo e la scultura all´antica.
Catálogo da exposição. Ferrara: Silvana Editoriale, pp. 97-
110.

Artista

LOMBARDO, Antonio

Data

1506/ 1508

Local

São Petersburgo, Museu do Ermitage

Medidas

83 x 106 cm

Técnica

Mármore

Suporte

Escultura

Tema

Mitologia, História e Topografia Antigas

Período

36 - SÉCULO XVI

Index Iconografico

12Min - Atena Minerva; 12Min1 - O Nascimento de Atena; 12Min2
- A Disputa entre Minerva e Netuno pela Ática; 12Vul -
Hefaístos Vulcano, Mulciber

Autor

Luiz Marques

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