Madona Medici. Detalhe: o Menino Jesus

“A potência da torção do Menino é admirada até pelos críticos neoclássicos de Michelangelo, como o Conde Leopoldo Cicognara, que censura a falta de simplicidade do panejamento da Virgem, mas reconhece como o Cristo Menino pode ser comparado a um Hércules criança. A majestade do Menino converte-se no século XIX em terribilità, como em Stendhal [1817:II,318]:

Ses principes sur la nécessité de la terreur ne sont nulle part plus frappants que dans la Madone avec l´Enfant Jésus, qui est entre les deux tombeaux. Les formes du Sauveur du monde sont celles d´Hercule enfant.

No projeto da Sacristia Nova consignado no desenho do Louvre (inv. 837, 1975/2, n. XXI), como também no aspecto atual da Sacristia, o grupo da Virgem e do Menino Jesus ocupa uma posição central, pois para ele se dirigem os olhares dos dois Capitani, que contemplam uma epifania do divino e anelam, graças à sua intervenção, a superação da morte em direção à esfera da eterna beatitude celestial.

Como sublinha Barocchi (1962), foi Justi [1909:259] quem primeiro se apercebeu desta centralidade. Sobre ela, Tolnay [1934:290] erige sua interpretação:

“”Esta Virgem Medici está colocada em frente ao altar e é o fulcro da composição da capela””.

Como indica o desenho do Louvre, Michelangelo entendia inserir a Virgem e os dois santos que a ladeiam em uma estrutura tripartite complexa, destinada a abrigar os dois sarcófagos com os restos mortais de Lorenzo il Magnifico e de seu irmão, Giuliano, estrutura ela própria gravitante em torno da Virgem e enriquecida por duas figuras de deuses fluviais, jacentes sobre os sarcófagos, duas figuras de santos (SS. Lorenzo e Giuliano?), inseridas em nichos elevados acima dos santos Cosme e Damião, e, encimando o todo, duas figuras sentadas de pleurants e dois putti.

Ao lado das estátuas da Noite e da Aurora, a Madona Medici é a mais prestigiada das esculturas da Sacristia, haja vista as numerosas cópias que suscita desde o momento em que é deixada inacabada por Michelangelo em 1534.

Logo após setembro desse ano, Niccolò Tribolo realizou, com as quatro Alegorias das Horas, uma copia em terracota da Madona Medici. Tribolo a ofertou a Ottaviano de´ Medici, como parte de uma bem sucedida estratégia de ganhar seu favor, após a morte de Clemente VII. Ottaviano a tem em alta conta, pois encomenda para ela uma requintada moldura em três dimensões.

As cópias da Madona Medici sucedem-se desde finais do século XVI, dentre as quais se recordem as de Ludovico Cigoli, Andrea Boscoli, G.B. Naldini (?), Rubens, Johann Füssli, Romney, Domenico Udine, Anselm Feuerbach, Géricault, Henri Chapu, Carpeaux, Rodin, Guttuso e Georg Häussler, cf. Rosenberg [2000:210-253].

Na carta a Michelangelo de 12 de janeiro de 1543 (BR:MVI), citada na nota anterior, Doni conclui suas impressões das esculturas por uma hipérbole de tipo inania verba:

“”se eu viesse àquela Nossa Senhora, não ousaria dela falar sobre quanta arte, em que belo modo extraístes daquele pequenino mármore uma figura tão grande””.

Condivi opta pela mesma figura de discurso, ao se limitar a dizer:

“”Todas [as estátuas], em conclusão, divinas, mais que humanas; mas sobre todas uma Madona com seu filhinho a cavalo sobre sua coxa, da qual julgo melhor calar que dizer pouco. Por isso, nela não me detenho””.

Luiz Marques
13/01/2011

Foto Aurelio Amendola”

Artista

Michelangelo Buonarroti

Data

1521/ 1531

Local

Florença, San Lorenzo, Sacristia Nuova

Medidas

226 cm (medidas totais)

Técnica

Mármore

Suporte

Escultura

Tema

Bíblia e Cristianismo

Período

36 - SÉCULO XVI

Index Iconografico

712 - Tipologia da Virgem; 711B - A Virgem amamentando Madonna del Latte (Virgo lactans)

Autor

Luiz Marques

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