Ecce Homo

Ecce Homo, apesar da inversão cronológica, conclui a
Trilogia da Paixão, iniciada por Mihály Munkácsy (1844-1900)
no começo da década de 1880. O mestre húngaro já estava
então próximo de sua morte, ocorrida quatro anos mais tarde.

Nesse período, Munkácsy encontrava-se gravemente enfermo,
vitimado por doenças mentais que o acometeram fortemente
desde o começo da década de 1890. Não parece coincidência
que este Ecce Homo, executado durante esses anos,
fosse a mais obscura e sombria das pinturas da trilogia
cristã.

Cristo encontra-se diante de seu tribunal: uma população
exaltada, dividida entre os crentes que queriam poupar-lhe a
vida e os defensores de Barrabás, que por fim fora poupado
da morte por crucificação no lugar de Jesus. A figura magra,
alva e barbuda não olha para a multidão vociferante. Neste
momento, Cristo encontra-se já flagelado pelos soldados
romanos e coroado de espinhos. “Eis o homem”, são as
palavras de Pilatos ao apontar para Jesus, suscitando o
movimento da massa de indivíduos que se lança para frente
quase ao mesmo tempo.

São homens e mulheres anônimos. Algumas mulheres desfalecem
no canto esquerdo da tela, enquanto um grupo de três homens
na zona centro-direita da tela presta reverência ao
condenado: um homem de vestes azuis ergue os dois braços,
outro se ajoelha e abre os braços enquanto o terceiro se
curva e ergue uma das mãos. Parecem ser os únicos, neste
fragmento de cena, que se compadecem dele.

A maioria dos demais indivíduos está exaltada, levanta os
braços e pede a condenação de Jesus. Os corpos se amalgamam
numa massa escura e só podemos diferenciar cabeças
gesticuladoras. No plano de fundo, a escuridão da noite
lança suas sombras sobre as arcadas da arquitetura do lugar.
Os homens que se projetam, raivosos, do meio dessas sombras
são quase disformes, não podemos identificar seus rostos. A
composição se divide entre um grande pólo escuro que vai até
a primeira coluna ao lado direito de Pilatos, e um outro,
fracamente iluminado, que nos esclarece o que se passa no
alto da cena. Tal é o poder das sombras e dos negrumes que
os soldados atrás de Jesus são engolidos pela penumbra.

As sombras são tão onipresentes que rebaixam as tonalidades
de toda a tela. Marrons, ocres, terras de Siena queimadas e
sombras queimadas contaminam todas as cores. O espetáculo da
escuridão é reforçado pelas pinceladas de branco que compõem
turbantes, lenços e panejamentos ao longo da composição.
Munkácsy não nos propõe uma explosão de cores vivas e nem
mesmo o manto vermelho de Cristo é capaz de se sobressair
diante de tão pouca luz.

O Ecce Homo do mestre húngaro é uma referência direta
ao célebre homônimo de Honoré Daumier (1808-1879), de 1849.
Este, como aquele, é uma grande ode à monocromia dos tons
terrosos. No entanto, a turba rota de Daumier é quase uma
abstração, ao passo que o estilo acadêmico e formalista de
Munkácsy não chegaria a tamanho desprendimento das formas e
dos contornos.

Além disso, a agitação da cena do pintor húngaro é quase
plácida e solene se comparada à convulsão humana que irrompe
das pinceladas ágeis e febris do artista francês. Munkáscy
encerra a trilogia que lhe dera fama e reconhecimento com
uma tela obscura, que concede poucas regalias ao deleite dos
olhos. Parece que invertera propositalmente a ordem dos
fatos para, como Cristo (lembremos que o Cristo de
“Gólgota”, de doze anos antes, era um autorretrato), ser
apontado como “Eis o homem”, nesse caso entendido como “Eis
o artista”, o qual, apesar da saúde debilitada e da mente
perturbada por depressões e sombras, ainda queria se mostrar
capaz de produzir uma grande obra.

O julgamento do tempo parece ter-lhe dado o veredicto a seu
favor. As três pinturas da Trilogia da Paixão reuniram-se,
pela primeira vez, em 2009, quando passaram a ser exibidas
no Déri Museum, de Debrencen, na Hungria por meio de uma
ação conjunta entre este museu e a Art Gallery of Hamilton,
do Canadá, proprietária da tela Cristo diante de Pilatos.
Por um período de cinco anos, elas serão expostas em uma
sala especialmente construída no museu para abrigar o que
acabou por se constituir a obra-prima de Mihály Munkácsy.

Richard Santiago Costa
19/03/12.

Bibliografia
1993 – J.-Ph. Breuille (dir.), Dictionnaire de peiture et de
sculpture : l´art du XIX siècle. Paris: Larousse.

Artista

MUNKÁCSY, Mihály

Data

1896

Local

Debrecen (Hungria), Déri Museum

Medidas

403 x 650 cm

Técnica

Óleo sobre tela

Suporte

Pintura

Tema

Bíblia e Cristianismo

Período

50 - SÉCULO XIX

Index Iconografico

606E - Paixão de Jesus Cristo; 606E32 - Ecce Homo ou o
Cristo como Vir dolorum

Autor

Luiz Marques

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