Mercúrio criando a lira; Apolo citaredo; homem carregando um fardo

“Registro inventarial: inv. 688r.

A figura principal no recto deste fólio é um dos mais espetaculares estudos de Michelangelo nestes anos iniciais do primeiro decênio do século XVI, e sem dúvida também um dos mais diretamente inspirados pela estatuária monumental romana.

Seu modelo, consoante uma proposta geralmente aceita, seria uma escultura dos Orti Farnesiani (sobre o Palatino), que teria sucessivamente servido de modelo também a Rafael para criar a figura de Mercúrio no afresco da Assembleia dos Deuses* da Loggia de Psiquê, no Palácio Chigi (hoje Villa Farnesina).

Segundo diversos estudiosos, entre os quais Luciano Berti e Paul Joannides, Michelangelo teria reelaborado de memória esta estátua em Florença, onde se encontra entre 1501 e 1505.

A figura representa um Hermes ou Mercúrio, identificável por seu capacete alado. A presença da lira (ou viola da braccio), atributo em geral de Apolo, poderia aludir, segundo Henri Thode, à criação do instrumento por Hermes a partir da casca de uma tartaruga (khelus), sobre a qual ele tende as cordas feitas com os intestinos das vacas roubadas a Apolo, duas das quais ele sacrificara aos deuses do Olimpo, comendo suas carnes cozidas. A fábula não se encontra em Ovídio, mas em Apolodoro, III,10,112:

[Hermes] “”encontra diante da gruta [em que escondera as vacas roubadas a Apolo] uma tartaruga a comer. Esvazia-a e sobre sua casca tende cordas feitas das vísceras das vacas que sacrificara; deste modo, inventou a lira. Foi o primeiro a cozinhar a carne, inventou a lira e também o pletro””.

Mais tarde, Apolo aceitaria receber, em troca das vacas roubadas, esta invenção de Mercúrio, que passaria a ser seu atributo por excelência. De resto, a presença da lira no desenho indicaria, alternativamente, uma adjunção do artista com o objetivo de transformar a representação de um Mercúrio em um Apolo citaredo.

É possível imaginar, em qualquer dos casos, como propõe Joannides [2003:101], que Michelangelo tenha concebido esta figura musical como parte de um relevo para o sepulcro de Júlio II, cuja colocação, segundo o projeto de 1505, era ainda o coro da basílica de São Pedro, entre duas tribunas de cantores.

Segundo Dussler [1959:132], a figura embaixo à esquerda seria uma adaptação do menino da fonte outrora nos jardins da villa Cesi, em Roma, proposta que, compreensivelmente, não grangeou consenso.

Luiz Marques
12/01/2011

Bibliografia:
1959 – L. Dussler, Die Zeichnungen des Michelangelo. Kritischer Katalog, Berlim, p. 132.
2003 – P. Joannides, Inventaire Général des Dessins Italiens, VI: Michel-Ange. Élèves et Copistes. Com a colaboração de V. Goarin e C. Scheck. Paris: RMN, p. 98″

Artista

Michelangelo Buonarroti

Data

1501/ 1505c.

Local

Paris, musée du Louvre

Medidas

402 x 215 mm

Técnica

Pena

Suporte

Pintura

Tema

Mitologia, História e Topografia Antigas

Período

36 - SÉCULO XVI

Index Iconografico

12Mer - Mercúrio Hermes; 12Apo - Apolo Febo, Hélio, Sol

Autor

Luiz Marques

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