Índio Tarairiu

“O Índio Tarairiu, também conhecido como Homem Tapuia, pertence à etnia dos Tarairius que, por sua vez, constitui-se como um ramo da etnia Tapuia, aliada dos holandeses quando estes invadiram o nordeste brasileiro a mando da Companhia das Índias Ocidentais em 1637.

Habitavam o litoral e o sertão do Rio Grande do Norte, Pernambuco e Ceará, e não falavam a língua tupi. Eram conhecidos por serem povos extremamente guerreiros, ágeis e velozes. Contudo, a característica que mais lhes trouxe fama foi a prática do canibalismo, em especial o endocanibalismo (canibalismo entre os próprios membros da tribo). Acreditavam que não existiria sepulcro melhor para os restos mortais de seus iguais do que seus próprios corpos.

A figura do índio Tarairiu de Albert Eckhout (1610-1666) é robusta, denunciando a forma física voltada para as práticas próprias à essa etnia. De pele morena avermelhada, o índio diante de nós adota uma postura de exibição de suas armas de defesa e caça: na mão esquerda, quatro dardos (geralmente envenenados e letais) e um propulsor decorado com penas e sementes; na mão direita, um tacape ou borduna negro incrustado com decorações a base de conchas e penas.

Ainda de acordo com as tradições dos Tarairius, o índio apresenta um amarrilho peniano. Nos pés, calça uma espécie de sandália feita com casca da árvore caraguatá. Eles tinham o costume de andar nus, utilizando apenas pinturas corporais e alguns enfeites de plantas ou penas. No caso do índio retratado por Eckhout, não vemos nenhuma pintura corporal, apenas um cocar na cabeça feito com penas de araras, intercaladas nas cores vermelha, amarela e verde principalmente.

Caindo pelas costas, há um conjunto de penas de ema até a altura das nádegas. No rosto, ornatos típicos da tradição Tarairiu: nas maçãs do rosto, dois ornatos de madeira ou osso atravessam as bochechas; logo abaixo do lábio inferior, um ornato em resina de jatobá também transpassando a pele; na orelha esquerda há uma espécie de alargador de madeira.

Um traço marcante desse índio Tarairiu é seu aspecto guerreiro, com um semblante quase hostil ao observador. Sua postura é a de alguém que parece ter aberto uma exceção ao pintor para que fosse retratado em seu cotidiano. O corpo levemente inclinado e a cabeça voltada para o espectador demonstram isso.

Além disso, a paisagem em que ele se insere possui uma dualidade entre o real e o alegórico. Por um lado, temos uma rigorosa representação de alguns espécimes vegetais e animais como uma aranha caranguejeira no canto esquerdo da tela, uma jibóia morta no lado direito, uma pequena lagarta nas folhas de pinhão-manso, a salsa-da-praia rasteira, bem como algumas espécies de flores.

Por outro lado, a paisagem é condizente com o caráter selvagem do índio retratado e da etnia a ele pertencente. A jibóia com traços de sangue parece que acabara de ser morta pelo tacape do homem, ao mesmo tempo em que sua feição é retratada de forma exagerada, com os dentes a mostra de modo a transmitir a ferocidade tanto dela quanto do Tarairiu que a abateu.

Junte-se a isso o fato de a aranha caranguejeira ser conhecida como uma das espécies mais agressivas e letais entre os aracnídeos, sendo associada, portanto, ao alto grau de violência que Eckhout quis imprimir à cena. Por fim, o céu que se abre no horizonte tem forte filiação à tradição paisagística holandesa: alto, com linha do horizonte baixa, e muito nebuloso. Contribuem para uma atmosfera de hostilidade que se concretiza no campo deserto que se desenha ao fundo da composição.

Richard Santiago Costa
12/04/2011

Bibliografia
1990 – C. do P. Valladares, L. E. de Mello Filho. Albert Eckhout – A presença da Holanda no Brasil, século XVII. Rio de Janeiro: Edições Alumbramento.
2002 – E. van den Boogaart. “”A População do Brasil Holandês retratada por Albert Eckhout, 1641-1643″”. In ECKHOUT volta ao Brasil 1644-2002. Nationalmuseet, Copenhagen, Denmark.
2002 – P. Mason. “”Oito Grandes Quadros com Pessoas das Índias Orientais e Ocidentais. A Montagem Maravilhosa de Albert Eckhout””. In ECKHOUT volta ao Brasil 1644-2002. Nationalmuseet, Copenhagen, Denmark.

Artista

ECKHOUT, Albert

Data

1643

Local

Copenhagen, Museu Nacional da Dinamarca

Medidas

266 x 159 cm

Técnica

Óleo sobre tela

Suporte

Pintura

Tema

Ciência Ilustração científica e Etnografia

Período

SÉCULO XVII

Index Iconografico

1210 - Representações Etnográficas; 1210Ind - Indígenas e outras etnias americanas

Autor

Luiz Marques

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