Congada

“Nessa fotografia os personagens, trajados com vestes africanas, estão dispostos em um semicírculo. Concentrados na encenação da festividade, os homens à esquerda tocam tambores e somente um olha para o fotógrafo. A parede rústica no plano de fundo destaca os personagens e as vestes brancas das mulheres.

A congada, um dos raros dias festivos para os escravos, enfatizava laços de sociabilidade entre os cativos, e foi um tema interessante para fotógrafos como Arsênio Silva e Ruy Santos (ver Congada em Minas Gerais). Como nota Lilia Schwarcz,

“”Assim como as cavalhadas, as congadas simulam combates entre cristãos e mouros. Porém, seus participantes não são senhores de terras, mas escravos e libertos, negros ou descendentes de africanos. O enredo é fixo: o rei do Congo, que é o rei dos Cristãos, recebe uma embaixada do rei dos Mouros – a qual, em algumas variantes, pode ser a embaixada da rainha Ginga. Em questão está a conversão dos infiéis, que, recusando o pedido, entram imediatamente em conflito. Simulados por meio de bailados, os embates se desenvolvem, até que os mouros são derrotados e convertidos ao cristianismo.””

Para a sociedade imperial, as festas em torno de um rei do Congo eram aceitas por serem organizadas por meio de irmandades de devoção a santos católicos. Como nota Manuela Carneiro da Cunha, a sociabilidade escrava representava uma forma de resistência. Segundo a autora, “”as irmandades religiosas, por exemplo, funcionavam como consórcios para a compra da liberdade””. Nossa Senhora do Rosário é a padroeira dessas irmandades, e o fotógrafo Christiano Júnior documentou uma dessas festas dedicadas à santa.

Arsênio Cintra da Silva (1833-1883) foi pintor, fotógrafo e professor. Estudou em Paris e em Roma no fim da década de 1850. Ao retornar ao Brasil, dedicou-se ao ensino de pintura de paisagem e também ao fotojornalismo. Como fotógrafo, teria atuado junto à família imperial, documentando a residência de verão em Petrópolis e o casamento da Princesa Isabel, em 1864.

Maria Antonia Couto da Silva
20/01/2011

Bibliografia:

1988 – Cunha, Manuela Carneiro da. “”Olhar escravo e ser olhado””. In: Azevedo, Paulo César De; Lissovsky, Murício (Orgs.). Escravos brasileiros do século XIX na fotografia de Christiano Jr. São Paulo: Ex-Libris, p. XXX.
1989 – Schwarz, Lilia Moritz. As barbas do Imperador. Dom Pedro II um monarca nos trópicos. São Paulo : Companhia das Letras, p. 274.

Artista

SILVA, Arsênio da

Data

1865c.

Local

Rio de Janeiro, Biblioteca Nacional

Medidas

17,5 x 23,4 cm

Técnica

Fotografia

Suporte

Pintura

Tema

Vida Social e Gênero

Período

O SÉCULO XIX NA AMÉRICA HISPÂNICA E NO BRASIL (A PARTIR DE 1822)

Index Iconografico

1546 - A Escravidão Negra; 1548 - O Escravo e a Escravidão

Autor

Maria Antonia Couto

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